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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A honra da equipa


Quantos anos pode esperar uma equipa até encontrar a sua glória? Nos dias de hoje, ninguém arriscará dizer mais do que um ou dois anos. No entanto, a glória pode ser medida de várias formas. Para o Sutton United, mais de uma dezena de títulos foi conquistada na sua longuíssima história. No entanto, para alcançar a verdadeira glória, foram necessários noventa anos. Sim, noventa anos. Exactamente o tempo que separa a fundação deste clube dos arredores de Londres do jogo em que atingiram a fama nacional e internacional. Esse jogo, a contar para a FA Cup, a famosa Taça de Inglaterra, foi disputado em sua própria casa, contra o Coventry City. A partilhar a felicidade dos milhares de adeptos deste pequeno clube estava Andy Murray, o guarda-redes suplente da equipa.
Andy Murray, enquanto jogador de futebol, era um produto da casa. Começou muito jovem, aos dez anos, a jogar na equipa do Sutton United. O nome deste clube raramente sai das portas do seu bairro. Disputando os campeonatos amadores ingleses, sem maiores ambições que não seja o facto de poder, domingo após domingo, satisfazer a vontade dos seus jogadores em terem um equipamento digno (todo de amarelo, neste caso), disporem de um relvado com as medidas regulamentares e conseguirem fazer um mínimo de pontos para não descer para um campeonato ainda mais fraco. Andy Murray disputou muitos jogos com a camisola da sua equipa enquanto adolescente e, quando  chegou a sénior, cumpriu o seu sonho, assinar um contracto amador para jogar na equipa principal.
Em 87-88, o clube lutava para encontrar a estabilidade na Conference League, o mais alto nível dos clubes amadores em Inglaterra. Andy Murray passou grande parte dessa época a treinar e a aspirar chegar ao lote de convocados, o que acabou por acontecer uma dezena de vezes. Na época seguinte, 88-89, Andy foi promovido a segundo guarda-redes. Tinha agora vinte anos, trabalhava como ajudante no talho local, a sua vida era perfeita. No entanto, ninguém poderia imaginar que, com a possibilidade de disputar a Taça de Inglaterra, o Sutton pudesse atingir um patamar de destaque. O conjunto de jogadores era o mesmo de há umas épocas, dirigidos por  Barrie Williams, um treinador com ares de Lord Inglês que passava os jogos a fumar o seu cachimbo, com um ar praticamente imperturbável.
Na primeira eliminatória da Taça, o Sutton United foi a Daggenham vencer por 4-0. Na segunda, uma deslocação a Aylesbury valeu-lhes uma vitória por 1-0. Quis o sorteio que, na terceira eliminatória, recebessem o Coventry City, equipa da Primeira Divisão Inglesa que ganhara a Taça de Inglaterra apenas dois anos antes. Na tarde de 7 de Janeiro de 1989, o estádio estava cheio. Andy Murray lembra-se bem do nervosismo que reinou durante toda a semana, das presenças de jornalistas nos treinos, da exigência do treinador em inventar uma forma surpreendente de marcar cantos e livres perto da área. Andy também se lembra que foi essa insistência que lhes valeu o resultado. Os jogadores do Coventry entraram em campo mais do que convencidos da vitória, mas a fúria dos amarelos de Sutton, conjugada com a sua organização,  valeram a grande surpresa da eliminatória. Nunca mais, desde esse dia, uma equipa amadora venceu uma equipa da Primeira Divisão na FA Cup.
O sorteio da eliminatória seguinte determinou o encontro do Sutton United com uma outra equipa canarinha, o Norwich City, à época uma das mais fortes equipas inglesas. No entanto, na semana anterior ao jogo, o guarda-redes titular lesionou-se, fracturando três dedos da mão enquanto trabalhava numa obra. Andy Murray teria a sua estreia na equipa do Sutton United num palco de sonho, Carrow Road. O mesmo campo que ele só vira na televisão, cheio de estrelas com quem ele nunca sonharia jogar, seria o campo da sua estreia. Foi um dia histórico, sim. Para Andy, que se estreou. Para o Sutton United, que disputou uma impensável quarta eliminatória da Taça. E para o Norwich, que conseguiu uma das suas maiores goleadas na competição. 8-0. Oito, o número de golos que Andy sofreu naquele jogo. Mas ainda assim foi destacado como um dos melhores jogadores da sua equipa. A sua coragem evitara um descalabro ainda maior.
Noventa anos esperou o Sutton United pelo seu dia de glória, e apenas dois dias teve que esperar Andy Murray pelo seu. Foi esse o tempo que demorou a tocar o telefone do talho onde trabalhava, sendo que do outro lado estava Ian Branfoot, treinador do Reading FC, equipa profissional da Terceira Divisão. O convite era para que Andy assinasse contrato de dois anos, e que se juntasse de imediato aos azuis e brancos, que estavam com um problema de lesões entre os seus guarda-redes. Andy Murray não pensou duas vezes. Aceitou. Largou o talho, a glória efémera do Sutton United, o seu bairro. Foi atrás de um sonho que alimentara durante muito tempo, sendo que, durante todo esse tempo o considerara impossível de alcançar.
Andy Murray jogou durante seis anos no Reading. Depois seguiu para Southampton, onde disputou alguns jogos da Primeira Divisão, durante três épocas. Depois, esteve duas épocas num depauperado Portsmouth, na Segunda Divisão, acabando por regressar ao Sutton onde ainda hoje joga, com 41 anos, sendo dono do talho local e treinador dos guarda-redes mais jovens da formação do seu bairro. Andy Murray é uma das figuras do clube, um dos rapazes mais respeitados da localidade. Dizem que, tendo sido um eterno suplente em quase todos os clubes por onde passou, ganhou um carisma que poucos guarda-redes conseguem manter durante toda a sua carreira. Em plena adversidade, Andy sobressai, salvando, senão o resultado, pelo menos a honra da sua equipa. E isso, meus amigos, tem um valor incalculável.

domingo, 16 de outubro de 2011

A pecadora mão de Jesús


Era uma vez um rapaz, Jesús Cravero, a quem todos destinavam um grande futuro como futebolista. Jesús nasceu em Gerli, nos arredores de Buenos Aires, em 1966, filho de um negociante de sabão e velas, indústrias que por ali haviam instalado as suas fábricas. Jesús dividia o seu tempo entre a escola, à qual não podia faltar nunca, dado o seu pai ver na escola a garantia do futuro dos filhos, e as ruas onde jogava futebol com os seus amigos. Como nunca chumbara em nenhum ano, conseguiu ganhar autorização parental para ir treinar no Clube Atlético Lanús, uma das famosas escolas de talentos argentinos no jogo da bola no pé.
Jesús começou a sobressair logo nos primeiros treinos e isso garantiu a sua entrada na equipa. Apesar de um pouco franzino, Jesús tratava a bola como ninguém, executando fabulosos passes a qualquer distância, com a capacidade de fazer chegar a bola direitinha aos pés dos colegas. O entusiasmo crescia à volta deste pequeno talento e todos esperavam que o seu crescimento acompanhasse o regresso do Lanús à Primeira Divisão Argentina, depois de alguns anos pelas divisões secundárias. Jesús começou também a ser chamado às selecções juvenis, causando algum impacto nos torneios sul-americanos.
A carreira de Jesús iria, no entanto, ser bem mais difícil do que aquilo que ele poderia imaginar. Depois do seu último ano de júnior no Lanús, passou uma época inteira a treinar com a equipa de reservas, dado que o treinador dos seniores esperava que ele ganhasse mais massa muscular, antes de o lançar às feras. A sua carreira escolar, que já não era famosa com as constantes viagens, jogos e treinos, passava agora uma fase negra, dado o desânimo e o cansaço físico que tal programa causava em Jesús. A decisão do pai Cravero não se fez esperar: acabava-se a ideia do futebol profissional para ocupar o tempo a estudar para os exames de acesso à universidade.
Jesús aceitou a decisão do pai, ainda que inconformado com a ideia de não vir a ser profissional de futebol. E a verdade é que conseguiu fazer todos os exames e aceder à Universidade no início de 1986. Em casa, o ambiente era agora de reconciliação, tanto que, convidado pelo director da equipa local, o El Porvenir de Gerli, Jesús voltou aos campos para disputar o Torneio de Abertura de Reservas da Primeira B da Argentina. A equipa alvi-negra não tinha grande história, mas o seu estádio situava-se no mesmo bairro onde vivia a família Cravero, sendo que a proximidade de casa era uma das razões que fazia com que todos, inclusive o seu pai, acompanhassem com fervor as partidas de Jesús.
Mais uma vez Jesús entusiasmava os adeptos, ainda que disputasse um campeonato de nível inferior. Tentando sempre escapar às entradas maldosas dos adversários, Jesús não deixava de ser o craque da equipa, com os seus passes, as suas fintas, os seus remates de fora da área. O seu ar franzino enganou adversários por pouco tempo, pois logo se espalhou a palavra de que o rapazinho de Lanús andava agora por aqueles lados.  A época começou no início de Fevereiro e durante a primeira fase, o El Porvenir só perdeu um jogo. Dos 31 golos marcados pela equipa, dez foram da autoria de Jesús, que era assim o melhor marcador da equipa. Todos acreditavam, nesse momento, que o El Porvenir ia conseguir ganhar o título.
1986 foi um grande ano para o futebol argentino. No México, enquanto Jesús Cravero disputava o Torneio de Abertura, a Selecção Nacional mostrava-se ao mundo liderada por Diego Armando Maradona. A euforia saía à rua sempre que a Argentina disputava uma partida, sendo que todos assistiam, colados aos televisores, às façanhas protagonizadas pelo pequeno génio. Jesús Cravero imaginava-se assim, um dia, a voltar a vestir a camisola alvi-celeste num Mundial, a ser idolatrado por todos, capaz de percorrer relvados inteiros, levar a sua equipa às costas, quem sabe ser campeão e levantar a taça na tribuna de um estádio.
No dia 22 de Junho de 1986, Maradona protagonizou um dos lances mais polémicos da história do futebol. No início da segunda parte do jogo frente a Inglaterra, Maradona correu entre os defesas ingleses, a bola ressaltou para em direcção a Valdano, mas foi interceptada por um defesa que a pontapeou para o ar. Aí o tempo parou. Maradona e Peter Shilton saltaram juntos para alcançar o esférico e, no momento seguinte, era golo da Argentina. Jesús ficou siderado com aquele golpe de génio, que o próprio Maradona chamou de “mão de Deus”. Nesse dia, os festejos em Gerli foram mais comedidos porque uma outra importante data estava agora mais perto do que nunca.
 O Torneio de Abertura de Reservas da Primera B decidia-se numa final a duas mãos, entre os vencedores das respectivas séries. No dia 26 de Junho, o El Porvenir deslocou-se ao campo do Desportivo Italiano, para disputar a primeira mão. Com o resultado empatado a zero, cumpria-se o trigésimo minuto da partida quando, ressaltando a bola num defesa da equipa da casa, Jesús Cravero saltou com o guardião adversário e, ajeitando a bola com a ponta dos dedos, marcou o primeiro golo da sua equipa. Jesús correu pela linha de fundo gritando “é a mão de Jesús, é a mão de Jesús”, mas, nas suas costas, o bandeirinha dava sinal de anular o golo. “Chega-nos acreditar na mão de Deus” – disse-lhe o árbitro ao mostrar-lhe o cartão amarelo.
Durante o resto da partida, Jesús foi assobiado a cada vez que tocava na bola. Saiu de campo cabisbaixo, não querendo sequer festejar a vitória da sua equipa, que viria a conquistar o título. Jesús sabia já o que o esperava. Percebera que ao intervalo o seu pai tinha abandonado o estádio, incapaz de assistir à vergonha de ver o seu filho ser tratado como um criminoso. No fundo, ele apenas tentara homenagear o génio, mas tal audácia não lhe havia sido perdoada. O seu pai não lhe falou durante uma semana inteira. Durante essa semana, Jesús Cravero apresentou-se no treino da sua equipa apenas para avisar de que abandonaria o futebol para sempre. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O gigante olímpico


Algumas das mais belas páginas da história do futebol mundial foram escritas por homens que se entregaram ao jogo da bola com paixão e fervor, sem que nada lhes fosse oferecido em troca. Essa história é, em certa medida, a história de Takaji Ono. Takaji, como todos os japoneses que foram filhos da Segunda Guerra Mundial, pouco mais tinha com que ocupar o seu tempo se não fosse jogando. E se alguns imitavam os americanos do Baseball, outros, como Takaji, preferiam correr atrás de bolas feitas de trapos velhos, não imitando ninguém que eles tivessem alguma vez visto. Apenas sonhando com esse jogo, o futebol, que corria mundo e chegava, tímido, ao Japão.
Não havia, na altura, competição organizada no país. Essa chegaria apenas em 1965. As equipas, amadoras ou, menos que isso, pequenos grupos informais de amigos que se juntavam para representar esta ou aquela rua, organizam torneios que eram disputados em campos improvisados no meio das cidades. Takaji Ono, vivendo na cidade de Kawasaki, participou em inúmeros destes torneios até ser convidado a integrar a equipa do NKK Football Club, um clube que, ao tempo da organização do primeiro campeonato japonês, foi integrado na segunda divisão nacional.
Takaji tinha, na altura, 23 anos. Era um defesa forte, beneficiando de dois factos que o faziam ser notado entre os seus colegas de equipa: primeiro, sendo o seu pai um bem estabelecido fotógrafo da cidade de Kawasaki, tinha contactos e posses suficientes para que em casa nunca tivesse faltado alimento; segundo, a sua família trazia, nos genes, a marca dos homens mais altos da cidade, tanto que Takaji não era excepção, com o seu metro e oitenta e sete. Não era um jogador muito dotado, mas extremamente eficaz no corte de bola e no seu rápido lançamento para o ataque.
Takaji fez parte da equipa que ganhou a primeira Taça Shakajin, em 1965, e depois da equipa que conseguiu a promoção à primeira divisão japonesa, em 1967. O seu primeiro ano na principal liga do país foi tão pleno de sucessos que acabou convocado para participar nos Jogos Olímpicos de 1968, realizados na Cidade do México. O historial da selecção japonesa era pobre, quase inexistente. Nunca tinha estado num Mundial de Futebol, nem numa Taça da Ásia. As suas experiências internacionais resumiam-se aos Jogos Olímpicos, com três presenças, seis jogos, com o inexpressivo balanço de duas vitórias e quatro derrotas, oito golos marcados para vinte e dois sofridos.
Num torneio onde vários outros países sem história lutavam contra alguns dos melhores países do mundo, o Japão não teve muita sorte no seu sorteio. Ainda assim, no seu primeiro jogo, contra a selecção da Nigéria, o Japão entrou dominador e venceu por 3-1. No segundo encontro, contra uma equipa de jovens brasileiros, um golo nos últimos minutos deu um empate inesperado. Chegados à última jornada, e com o empate a zero a servir os intentos de japoneses e espanhóis, assistiu-se a noventa minutos de passes para o lado, à espera da segunda fase. A equipa japonesa, com Takaji Ono no onze titular, conseguia um inesperado apuramento.
Nos quartos-de-final, contra a França, o Japão terá feito a sua melhor exibição na competição. Os franceses, ainda que apresentando uma equipa mista, tinham vários jogadores com experiência em competições internacionais, nos campeonatos europeus de clubes e na competitiva liga francesa. Os japoneses entregaram-se ao encontro com a bravura dos momentos únicos. Com o marcador a registar um empate a um golo no intervalo, a segunda parte foi dominada pelos bravos amadores nipónicos, que conseguiram aquele que foi considerado o mais importante resultado do futebol do país do sol nascente durante décadas, uma vitória por 3-1. Na meia-final, contra os dominadores húngaros, e registando uma grande carência física, os japoneses viram-se vergados ao melhor futebol dos europeus e perderam por 0-5.
O dia 24 de Outubro de 1968 teria ficado na história do futebol mexicano se se tivesse vindo a cumprir a expectativa de todos os mexicanos: a vitória fácil do seu país sobre uns japoneses fisicamente muito fragilizados. Mas os rapazes mexicanos tinham ficado bem desmoralizados com a derrota nas meias-finais, frente à Bulgária. Assim, a disputa da medalha de bronze ficou marcada na história com duas grandes exibições. Ono, na defesa, a limpar todas as tentativas de ataque mexicanas, e Kamamoto, no ataque, a marcar por duas vezes, juntando a medalha ao título de melhor marcador do torneio. Ficava assim garantido o primeiro pódio da Selecção do Japão numa competição internacional.
Quanto a Takaji Ono, a sua carreira futebolística nunca mais voltou a ter tão altos voos. Regressado a casa, disputou apenas mais três campeonatos com a camisa do NKK. O seu pai carecia de cada vez maior apoio, na gestão da loja de fotografia, e Takaji dividia o gosto pela bola com o gosto pelo laboratório fotográfico. O futebol japonês começava também, no início dos anos setenta, a experimentar a entrada no profissionalismo, algo que  não atraía o bom gigante de Kawasaki. E assim acabou por abandonar o jogo da bola, sendo que, em algumas tardes de domingo, ainda era possível encontrá-lo entre os jovens da sua rua, a disputar uma partida com a equipa do bairro vizinho. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Caminho


Kim Minsoo nasceu numa Seoul dominada pelos japoneses, em 1940. A vida dos coreanos não era fácil n meio do declínio do Império do Sol Nascente, tanto que, durante a infância, Kim sofreu as devidas consequências. Como se as coisas não pudessem piorar, e pouco depois da Coreia ter declarado a sua independência, a cidade voltou a ser ocupada pelas tropas do Norte, sendo que, desta vez, foi praticamente devastada. Kim tornou-se, desde muito novo, um sobrevivente. Passou fome, muita fome. Viu coisas horríveis, coisas que não se atreveu a contar a ninguém mas que ainda lhe habitam algumas noites em que o sono não lhe vence os medos.
Em 1954, uma Coreia do Sul recentemente pacificada mas totalmente destruída, apresentou uma equipa de futebol no Campeonato do Mundo. Conseguida a qualificação e organizada a viagem para a Suiça, o país ficou na expectativa de resultados que mostrassem ao mundo a fibra deste povo que, pela primeira vez em muito tempo, parecia conseguir dar alguns passos por si próprio, sem que ninguém tentasse uma entrada assassina por trás. Não havendo, nessa época, nenhum serviço de televisão ou rádio na Coreia, a população juntava-se em volta da sede da Federação Coreana de Futebol onde eram relatados os principais eventos dos jogos disputados. O balanço foi pobre, duas derrotas com a Turquia e Hungria, na altura, considerada a melhor equipa do mundo. Mas o bichinho do futebol contagiou a população coreana.
Kim Minsoo fui um dos jovens que descobriu, em 1954, aquilo que quereria fazer para o resto da vida, correr atrás de uma bola de futebol. O campeonato coreano ganhou também algum vigor com a entrada da equipa nacional no Campeonato, por frágeis que tenham sido os resultados. Havia agora uma aposta comum em constituir uma equipa que pudesse obter vitórias fora da Península.  Kim Minsoo tornou-se jogador da Universidade de Kyunghee, disputando o Campeonato Nacional com várias equipas ligadas às estruturas do estado: exército, marinha, serviços secretos, comandos, companhia eléctrica, todos tinham equipas em competição. Kim jogava como interior esquerdo, aparecendo muitas vezes a finalizar as jogadas de ataque da sua equipa. Tinha uma constituição frágil, mas entregava-se à disputa como um verdadeiro guerreiro.
As vitórias internacionais da Coreia do Sul surgiram na Taça Asiática, de onde saiu campeão em 1956 e em 1960, tendo esta última sido disputada em casa, para gáudio de milhares de coreanos cada vez mais loucos por futebol. No entanto, uma nova desilusão surgiu em 1962, com a não qualificação para o Mundial disputado no Chile. Essas derrotas lançaram a discussão sobre a renovação da equipa nacional. Se para alguns, os heróis do Bi-Campeonato Asiático continuavam a ser os melhores jogadores, para outros, era urgente chamar novos jogadores à equipa. Ainda assim, foi com os mais experientes jogadores que a Coreia do Sul se apresentou em Israel para disputar mais uma Taça Asiática. Kim Minsoo, na altura já um jogador com currículo no Campeonato Nacional, ficou mais uma vez de fora.  A equipa nacional fez um torneio sofrível, voltando de Israel com um terceiro lugar inaceitável para quem, pela primeira vez, tinha direito a ver resumos na televisão.
Estavam então lançados os dados para a introdução de novos jogadores  na equipa nacional sul-coreana, a poucos meses da disputa dos Jogos Olímpicos de Tóquio, uma competição que todos, na Coreia do Sul, esperavam bem sucedida. Mas as confusões na preparação do torneio, os problemas para escolher uma equipa que agradasse a todos as equipas do campeonato e a inexperiência internacional dos jogadores escolhidos, deitaram por terra as esperanças coreanas. Quer o treinador, quer os jogadores, eram completamente ignorantes das novidades introduzidas no futebol internacional, quer a nível da preparação física, quer a nível táctico. E começando por defrontar a equipa da Checoslováquia, os sul-coreanos mais pareciam pequenos animais perdidos dentro das quatro linhas. Ao intervalo já perdiam por 4-0. No início da segunda parte, perante um adversário mais relaxado, Kim Minsoo ainda conseguiu reduzir, com um golo que viria a salvar-lhe a carreira de futebolista. Mas até ao final, os checoslovacos marcaram ainda por duas vezes.
Nos dois jogos que se seguiram a experiência não foi melhor. 4-0 contra o Brasil, que se apresentou com uma equipa de jovens, e 10-0 contra a União Árabe, no que ficou por ser a maior humilhação do futebol coreano de todos os tempos. As consequências não se fizeram esperar. Praticamente todos os jogadores foram afastados da Selecção, sendo que em 1966 a Coreia do Sul nem sequer participou na qualificação para o Mundial. A melhor forma de evitar novas vergonhas era, mesmo, não jogar, segundo os dirigentes coreanos. Quando foram retomados os contactos internacionais, Kim Minsoo era o único resistente da tristemente célebre equipa de 64. E após mais duas qualificações falhadas, na Taça da Ásia de 68 e no Mundial de 70, conseguiram voltar à ribalta em 1972.
Na Taça da Ásia disputada na Tailândia, os Coreanos bateram o Cambodja e a Tailândia, tendo empatado, na fase preliminar com o Irão, e perdido com o Kuweit e com o Irão, no reencontro para a final, disputada em Banguecoque. Kim Minsoo foi o líder da equipa, marcando quatro dos sete golos conseguidos. Apesar de ser considerado como o veterano da equipa, a garra que Kim colocava em todas as jogadas, aliadas ao seu profundo instinto de sobrevivência, valeram à Coreia do Sul a restituição do respeito internacional e a Kim a possibilidade de voltar a poder entrar de cabeça erguida nos estádios do seu país. Isso era, agora, a sua maior felicidade. Perceber que tinha escolhido o caminho certo para ser um homem honrado.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Cidades de futebol abandonadas


Que fique, desde já, registado o facto de Antonino Cardinale ter corrido atrás de bola de trapo pelas ruas de Agrigento, durante anos e anos da sua vida, tendo vestido a camisola do Akragas Calcio, equipa local, quando no ano de 1951 esta fez o seu primeiro jogo. Jogou durante os últimos três minutos dessa partida contra os rivais de Caltanissetta, acontecimento que foi aplaudido pelas centenas de pessoas que se juntaram em volta do rectângulo definido para o jogo. No entanto, Tonino nunca foi conhecido como jogador de futebol.
Tonino é uma daquelas figuras que podemos encontrar, sob diferentes moldes, em todas as cidades do mundo. É o homem que toda a gente conhece, que pouco demora a ser encontrado, que tem fortes opiniões sobre todas as coisas da cidade, que ama a cidade com uma entrega e inocência que mais nenhum pode oferecer. Tonino nasceu e viveu, sempre, em Agrigento. Provavelmente, nunca terá saído sequer dos limites da cidade em ocasião que não fosse a de acompanhar a equipa local a terra vizinha onde disputasse um jogo de futebol. Mas, jogador de futebol, Tonino nunca foi.
O Akragas Calcio foi o seu clube de sempre. Tinha ainda na memória o A.S.Agrigento, que durante a sua meninice chegou a andar pela primeira divisão italiana, mesmo em tempo de guerra. Mas dados os costumeiros problemas de pouca liquidez, o futebol cresceu em Agrigento com o nome de Akragas, clube do coração de Tonino, que o fez ser também parte da imagem do clube, convidando-o para envergar a sua camisola em dia de estreia. Isto foi tanto mais marcante que permitiu, nesse jogo, a imposição de uma substituição, quando ainda nem sequer existia essa possibilidade nos livros de regras.
Tonino sofreu imenso junto das quatro linhas em todos os jogos do Akragas. Para mais, a história do seu clube do coração fez-se de constantes altos e baixos, sempre nas mais secundárias divisões do futebol italiano. As camisolas azuis e brancas povoavam os sonhos de Tonino, desejoso de voltar a ter, em Agrigento, uma equipa que pudesse ombrear com as maiores de Itália. Mas a glória da sua cidade tinha ficado na história como cidade grega, sendo que nada indicava que a glória futebolística pudesse, alguma vez,  dar-lhe um pouco da sua atenção.
Pelas fileiras do Akragas passaram nomes famosos do futebol italiano, apesar de, tal como no caso de Tonino, nenhum deles por ser grande futebolista. Tonino viu o famoso futuro dirigente da Juventus, Lucciano Moggi, vestir a camisola azul e branca. Também viu o futuro grande treinador Gigi Maifredi fazer o mesmo. Mas, perante sucessivos falhanços nas contratações chegadas do continente, o Akragas passou a utilizar apenas homens da casa, sicilianos que garantiam uma dedicação e uma lealdade que nenhum rapaz chegado do continente poderia assegurar.
Conta-se que, por isso mesmo, foram recusados, quando ainda eram jovens acabados de sair das escolas de formação, Roberto Baggio e Nicola Berti, para além de Vicenzo Scifo, o belga que, a todo o custo, o pai queria tornar italiano. A história foi madrasta para o Akragas Calcio, tal como para Tonino. Tanta falta de sorte objectiva ia-lhes marcando os dias e as épocas, com resultados cada vez menos lisonjeiros, com o crescimento de outros clubes da ilha a ocuparem, agora, a fome de futebol de primeira às gentes de Agrigento, que se dispunham a ir até Palermo ou Catania para ver os seus heróis.
Tonino é que não deixou, nunca, de ser o mais fiel fã do Akranas Calcio. Fosse na Série C, na Série D ou nos campeonatos regionais, Tonino lá estava, junto às linhas, o décimo segundo jogador desta equipa esquecida por todas as histórias do futebol. Mesmo quando o clube mudou de nome, ficando conhecido por Agrigento/Favara ou Agrigento Hinterland, Tonino lá continuava, como se nada tivesse mudado, gritando pelo Akranas. Mesmo quando, dados os problemas financeiros do costume, a equipa ficou sem competir algumas épocas, Tonino nunca deixou de, mesmo que apenas na sua cabeça, apoiar o seu clube de sempre.
Dedicação como esta, acredito eu, pode bem ser encontrada em todas as cidades do mundo, em todos os clubes, existentes e inexistentes do mundo. Tonino foi talvez o jogador mais importante do Akranas Calcio, porque foi ele a única pessoa que sempre viveu o clube como se vivesse a sua própria vida. Mesmo que nunca tenha marcado um golo, feito uma finta, liderado, sequer, a organização de uma barreira perante um livre directo adversários. Mesmo que tenha apenas jogado por três minutos com a camisola azul e branca, mesmo que apenas num jogo não oficial. Tonino nunca foi jogador de futebol. Mas que interessa isso, perante o que Tonino ainda continua a ser?

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Como uma melancia


Toda a gente o apelidava de Sandía, melancia, pois era isso que faziam lembrar as suas atitudes. Era enganador, como a melancia que se promete verde ao nascer da terra e logo a descobrimos vermelha fogo por dentro, como se fosse sangue. No entanto, desse sangue nasce um frescor de água que se derrete mal toca a nossa língua. A ele, chamavam-no Sandía por ser assim, enganador. Adrián Cruz não era homem em que se pudesse confiar. O seu ar um tanto angelical escondia um carácter extraviado, capaz das piores coisas para que se saísse bem numa vida que pouco lhe prometia. Era por isso que lhe chamavam Sandía. Por isso, ou por ser originário de Concepción, uma das zonas de maior produção de melancia do Paraguai.

Adrián Cruz começou a jogar futebol no Deportes Concepción, uma equipa à sua imagem (ou será que foi ele que cresceu à imagem da equipa?), com um grande historial de problemas de violência e de desacatos dentro e fora do campo. Adrián tornou-se profissional de futebol por um daqueles acasos do destino. Desde jovem que fazia parte da equipa do Deportes e tinha dezoito anos quando o extremo-esquerdo titular se lesionou. Como o outro jogador que fazia essa mesma posição na equipa sénior estava castigado, ao treinador não restou outra opção que a de chamar Sandía para um jogo contra a equipa do Antofagasta. Tão bem se saíu Sandía que não mais largou a titularidade, pelo menos naquela época.

Era um jogador impossível de defender. A sua forma de jogar confundia todos, adversários e colegas de equipa. Tremendamente indisciplinado na táctica, Adrián cruzava o campo da direita para a esquerda sempre à procura de fugir aos seus adversários como quem foge da polícia (outra das coisas em que Adrián apostava o seu sucesso), elaborava fintas nunca antes vistas pelas terras onde jogava, rematava dos ângulos mais difíceis de forma a surpreender os guarda-redes. A isso juntava também um inconfudível mau humor e uma enorme garra em vencer, sendo que para tal não hesitava em entrar com os dois pés nas canelas de todo e qualquer adversário que tentasse fugir dele.

No início dos anos oitenta, o Deportes Concepción desceu à segunda divisão, no que seria o início de uma época conturbada para o clube, entre insucessos desportivos e problemas monetários. Adrián Cruz, grande jogador, tinha contra si a lastimosa fama de jogador incontrolável. E assim, não recebendo o seu salário no Deportes e sem encontrar quem pagasse a sua transferência, acabou por ir para o Brasil, para Goiás, onde trabalhava em plantações de melancia brasileira. Era uma função que conhecia dos seus tempos anteriores ao futebol, quando a bola não lhe permitia levar algum dinheiro para ajudar em casa. E como Adrián não tinha mesmo qualquer vergonha na cara, ser jogador de futebol ou colher melancias tanto lhe dava, desde que pudesse ganhar o que comer.

Ainda assim, todos sabemos que nunca um bom jogador de futebol passa incógnito, esteja em que lugar do mundo estiver. A Adrián Cruz aconteceu exactamente o que era esperado: foi descoberto. Num fim-de-semana em que saiu para beber umas cervejas com amigos, acabou a brincar com uma bola, deixando toda a gente espantada com as capacidades do seu pé esquerdo. Logo foi convidado para vestir a camisa do Santa Helena Esporte Clube, equipa goiana que disputava a segunda divisão do estado e nunca havia ganho título algum. Sandía tudo mudou. De repente, a equipa conhecida como “Fantasma do Interior” aterrorizava todos os adversários. Sandía pegava na bola e lançava a confusão à volta da área adversária, marcando e dando a marcar infinitos golos.

O grande jogo dessa 2ª divisão Goiana, em 1986, foi disputado entre o Rioverdense e o Santa Helena, infatigáveis rivais. Vencendo, o Santa Helena ganharia o seu primeiro título, acontecimento que os de Rio Verde tudo fariam para evitar. Talvez não se tenha jogado futebol no Estádio Pedro Romualdo Cabral. Talvez não fosse da bola que os jogadores corriam atrás, mas uns dos outros. Havia pé no pau, pau na cabeça, pedrada para todo o lado, não só no relvado como nas bancadas. Até que ao minuto oitenta, a bola chegou aos pés de Adrián Sandía Cruz, o melancia paraguaia, que, verde e enorme rebolou por entre defesas com punhos e antebraços abrindo o caminho, fez desaparecer a bola entre a promessa de sangue e, num remate poderoso, rasgou as redes do Rioverdense. O Santa Helena foi campeão.

Adrián tornou-se uma lenda em Goiás, como já era no Paraguai, embora não pelas mesmas razões nem com os mesmos efeitos. O futebol não crescia para o profissionalismo no Santa Helena, mas ser o craque da equipa valeu-lhe muitos e bons anos a trabalhar com os maiores produtores de melancia da região. Quando decidiu deixar o futebol, o seu mau feitio era já ignorado, aceite, como uma valência comum aos grandes artistas que povoam as quatro linhas em todas as partes do mundo. Também agora a sua aparência de durão era enganadora. Foi por isso que Sandía entrou na galeria dos mais respeitados jogadores de Goiás. Por fazer aquilo que a maioria nem em sonhos consegue imaginar que é possível: resolver campeonatos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O pior


Nenhuma outra opção  resta a um jovem jogador de futebol quando nasce na grandiosa pátria futebolística que é o Brasil, ser o maior ou não ser ninguém. No entanto, Eduardo Pereira Barcelos tinha um plano diferente. Nascido em Recife, capital de Pernambuco, Dudinha, assim era conhecido por todos, foi seleccionado para a equipa de jovens do Santa Cruz Futebol Clube. O seu apelido só podia ser brincadeira, pois Dudinha era o maior da sua turma. Um rapaz grande em todas as direcções. Por isso mesmo, jogava como defesa central, e batia, batia muito, em tudo o que mexesse perto da área da sua equipa. Isso tornara-o um jogador mais do que temido, uma lenda do futebol jovem de Pernambuco.
Foi subindo de escalão até ter a oportunidade de jogar na equipa principal do Santa Cruz. No início dos anos setenta, o Terror do Nordeste ganhava campeonato atrás de campeonato estadual. Dudinha, enorme defesa central, cheio de vontade e sem pingo de caridade, era chamado a entrar no relvado sempre que o assunto era pega de caras. Ele entrava, pegava, e a assistência aplaudia extasiada a violência do menino. Ainda assim, Dudinha jogava poucas vezes. Até porque era mais do que normal ver cartões vermelhos, tal a brutalidade com que ele defendia a camisola tricolor. Assim, mesmo que fosse o ídolo de parte da torcida, mesmo que tivesse sido três vezes campeão estadual, foi uma das primeiras vítimas da renovação da equipa.
Parecia então que as opções de Dudinha se tinham estreitado ainda mais. Dispensado do Santa Cruz, impossibilitado de ser o maior (nem que fosse do seu estado), o nosso craque parecia agora dirigir-se para aquele lugar onde não se é ninguém, imenso cemitério de prometedores jogadores de bola, aviadores das áreas, voadores frangos das balizas, incapacitados técnicos de acumuladas derrotas. Era tão triste o seu destino que chegou mesmo a colocar a hipótese, no Verão de 74, de deixar de jogar futebol. Dudinha era grande, era enorme, mas se isso não chegava para honrar a camisola da sua equipa de sempre, teria que servir para qualquer outro emprego. No entanto, a sorte não estava com ele. E durante quatro meses, nem futebol, nem emprego para Dudinha.
Iniciado o Estadual do Pernambuco há já algumas semanas, criou-se a oportunidade para Dudinha voltar aos relvados. O Íbis Sport Clube carecia de um defesa central de qualidade inquestionável para travar a avalanche de golos que sofria em cada partida. Então Dudinha foi lembrado por alguém na bancada, palavra que chegou aos ouvidos de um dos Directores, que questionou o Treinador, e ao fim de alguns momentos todos pareciam estar de acordo que esse era o homem de quem eles precisavam. Assim se fez a apresentação, com direito a jornalistas e tudo, Dudinha deixava o desemprego e vestia uma nova camisola tricolor (em tudo semelhante ao do seu Santa Cruz), com a vantagem de, nesta, não encontrar um número daqueles que sobravam para  se sentar no banco, mas o ilustríssimo número 3, seu número para a vida de titular entre os Gaivotas.
Já nesse tempo o Íbis Sport Clube gozava de um estatuto pouco invejável, o de ser um dos piores clubes do campeonato. Com a chegada de Dudinha, as esperanças de que isso se alterasse não viram, também, a luz da manhã. Na verdade, Dudinha aplicava-se, cada vez mais, no desporto da cerveja e do churrasco, sendo que a sua envergadura futebolística era apenas uma leve pena, se comparada com a monumentalidade do seu peso. Mas, ainda assim, Dudinha entrava em campo e batia no que podia, mesmo quando podia pouco. Felizmente havia intervalo para que ele pudesse beber uma ou duas cervejas geladinhas, restabelecendo assim o equilíbrio de suas pernas e de sua visão de jogo. A cada semana, a derrota apresentava-se como assunto impossível de ultrapassar, mas foi por isso mesmo que, entre todos, jogadores, associados e directores, cresceu a vontade de tornar a sua falta de qualidade no seu principal trunfo.
Quando se joga futebol na grandiosa pátria brasileira, as opções entre ser o melhor ou não existir, encontrava agora uma terceira via: ser, não só, a pior equipa do campeonato, mas, acima de tudo, a pior equipa do mundo. Para isso, Dudinha seria uma peça de alta qualidade no centro da defesa, acompanhado por outra grande lenda do Íbis, Mauro Shampoo, futebolista, cabeleireiro e homem, de quem já muito se escreveu nas mais encantadoras páginas do futebol mundial. A verdade é que, quando a equipa do Íbis deixou de tentar ser menos má, começou realmente a despertar a atenção do mundo inteiro. Jogo após jogo, as derrotas acumulavam-se, cada vez com mais golos contra e menos golos a favor. Este caminho começou em Julho de 1980, quando, depois de uma vitória sobre o Ferroviário, o Íbis só voltou a vencer no dia 17 de Junho de 1984. Mesmo antes dessa vitória, o Íbis já tinha acumulado outras dezanove derrotas.
Durante esses fabulosos anos, o clube marcou apenas 25 golos, tendo sofrido 231. Algumas notas são bem curiosas. Mauro Shampoo, ponta-de-lança durante dez anos, marcou apenas um golo desses vinte e cinco, um golo que o tornou numa lenda apenas comparável ao Rei Pelé. Dudinha, o nosso craque, também marcou um desses golos, numa das complicadas subidas à área adversária, onde depois de vários desencontros com a bola, esta beijou a sua canela e ganhou a direcção do golo. No entanto, Dudinha assegurou também sete golos na sua própria baliza. Uma marca invejável para todos os defesas centrais do mundo. A verdade é que muitos outros tentaram ser tão maus como Dudinha, mas nenhum conseguiu. Dudinha, honrado titular da pior equipa do mundo, foi o seu herói durante anos e anos seguidos. Resiste na memória de todos nós, por ter alcançado aquilo que quis: ser, magistralmente, o pior. 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

As luvas de Mcghee


Franck Mcghee tinha tão interiorizado em si o facto de ser guarda-redes que usava sempre luvas. Os seus colegas achavam curioso que aquela torre australiana tivesse hábitos tão estranhos. Mas ele era o melhor guarda-redes da história do Mohun Bagan AC, a equipa de futebol de Calcutá, também conhecida como os “Marinheiros”. E era isso que lhe perdoava todas as excentricidades. Franck “The Glove” Mcghee defendia como ninguém a baliza do clube que, entre os finais dos anos setenta e o início dos oitenta, dominou o futebol da região de Calcutá e de toda a Índia.
O caminho que este australiano fez até chegar a ser guarda-redes na Índia não é feito de evidências. Franck era descendente de irlandeses, todos eles ligados ao comércio marítimo na cidade de Perth, na costa oeste da Austrália. Dizia-se, em meados do século XX, que em cada esquina do porto de Perth havia um Mcghee. Isso fazia com que o  sentido de pertença ao lugar fosse algo que estava marcado, como ferro em brasa, em cada criança que nascia no clã. O problema de Franck era o facto de, no seu caso, a sua pertença ao clã ser, no mínimo, desconfortável. Fruto de uma relação ocasional entre um Mcghee e uma jovem que trabalhava num dos pub’s do porto, a sua marca provocava-lhe mais comichão do que orgulho.
Talvez fosse por isso que, desde muito novo, Franck sonhou fugir daquela cidade. Como é costume dizer-se, de Perth não se pode fugir por terra, dado o facto da cidade estar próxima do imenso deserto australiano. Daí, a Franck restava apenas a opção marítima. Devia ter treze ou catorze anos quando se apresentou a um capitão de embarcação inglês e se tornou marinheiro. Bem, talvez não marinheiro, mas um moço que ia no barco para fazer todo o tipo de serviços que aparecessem. E Franck, que mesmo jovem era já enorme, com perto de dois metros, não se negava a nenhuma tarefa. Foi assim ganhando o apreço dos ingleses e escoceses que, com ele, partilhavam a vida, sendo também com eles que começou a jogar esse desporto tão estranho à maioria dos australianos. O futebol.
A embarcação passava mais de metade do ano pelo Índico, a transportar bens, sendo que no fim desse período regressava a Inglaterra, onde passava o mês de Dezembro. Para Franck Mcghee tanto lhe fazia se o levavam para trás ou para a frente, coisa que ele não queria era regressar à Austrália. Foi assim conhecendo mundo, ora passando esse mês de férias em Inglaterra, com algum dos seus colegas, ora ficando pela Madeira, Cabo Verde, Angola, África do Sul, gozando de umas férias mais veraneantes do que aquelas que estavam reservados aos restantes, entre familiares e Natal. Por todos os lugares onde passava, Franck, fosse ou não com os seus colegas, não perdia a oportunidade de se exercitar na defesa de redes de balizas de futebol. O seu tamanho convidava-o sempre para essa posição, e a verdade é que, com a bola nos pés, o nosso homem não teria lugar em equipa alguma.
Era duro o trabalho no barco e habituais os acidentes. Para Franck, chegou o dia trágico em que perdeu três dedos da mão direita, presos a uma das cordas que manejava para prender uma série de volumes que se soltavam no meio das ondas do Índico. A maior tragédia prendia-se com o facto de, estando em mar alto, não haver maneira de preservar os dedos, tendo que esperar três dias até aportar em Calcutá para poder tratar e manter o resto da mão em bom estado. Franck sabia que aí acabava a sua carreira de marinheiro – de alguma forma, um tarefeiro sem dedos é algo de pouco préstimo para a tripulação de um barco – o que ele ainda não sabia era que começava aí a possibilidade de ser um futebolista.
Ficou em Calcutá quando o barco partiu, de novo, em direcção a oeste, esperando melhor oportunidade para continuar a sobreviver. E ao fim de poucos dias foi surpreendido por Badru Pal, um dos jogadores do Mohun Bagan, que se lembrava de o ver jogar em vários jogos no porto de Calcutá. Havendo falta de guarda-redes no clube, nem ocorreu a Franck tirar a luva que lhe escondia a falta de dedos, aparecendo ao primeiro treino, defendendo como era seu costume, todas as bolas que almejavam as redes da sua equipa. Foi contratado para a equipa que disputaria, nesse ano de 78, a Taça da Federação. E o sucesso foi tão grande que por lá continuou a dar alegrias aos Indianos.
À taça de 78, juntou as taças de 80, 81 e 82. Também venceu a Liga de Calcutá em 78, 79, 83 e 84. E ainda a IFA Shield, em 78, 79, 81 e 82. Ao todo foram sete anos a defender a baliza do Mohun Bagan AC, anos em que não lhe fizeram falta os dedos para ser considerado o grande guarda-redes da história do clube. Franck “The Glove” Mcghee tornou-se uma lenda em terras indianas. E quando, no fim da sua carreira de futebolista, voltou a Perth, a sua cidade não era mais o reduto dos irlandeses, mas um local cheio de gente de todo o mundo, o lugar onde Franck se sentia bem, por conjugar a terra que era sua, com a variedade de olhares, cheiros e línguas a que se habituara nas viagens pelos mares do mundo.
Nunca, na Índia, único lugar onde foi um futebolista federado, chegaram a saber da falta de dedos na sua mão direita. Franck Mcghee tinha tão interiorizado em si o facto de ser guarda-redes que, por isso, pensavam os seus colegas, usava sempre luvas. Todos  achavam curioso que aquela torre australiana tivesse hábitos tão estranhos. Todos o admiravam pelos seus feitos. Franck Mcghee foi, de facto, um guarda-redes feliz. 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uns minutos na vida



Erik Badu cresceu, na cidade ganesa de Kumasi, com um sonho: ser jogador de futebol. No entanto, os deuses que distribuem os dotes futebolísticos não lhe deram suficiente atenção. Erik, magro e franzino, era sempre o último a ser escolhido para os jogos entre os rapazes do seu bairro, era sempre o gozado por falhar inacreditáveis golos junto a uma das pedras que faziam de baliza na extremidade do descampado onde todos se encontravam,  era dos que tinham que jogar descalços por, na sua família, não haver dinheiro suficiente sequer para uns sapatos novos.  Erik tinha um sonho e uma longa estrada para percorrer até o concretizar.
Cedo a escola foi abandonada pelos biscates num dos armazéns de exportação de flores da cidade. Erik Badu ocupava os seus dias no sensível trabalho de transportar flores e plantas de diversas espécies, sempre na esperança de chegar perto da estação de caminhos-de-ferro de Kumasi, onde ouvia deliciado os relatos de jogos de futebol no estrangeiro, contados por velhos europeus que dominavam, ainda, as rotas daquele comércio no Gana. Foi assim que Erik aprendeu a sonhar com o Leeds United, o Chelsea, o Liverpool e o Manchester United, e foi também assim que Erik acabou por encontrar uma oportunidade para mudar de vida.
Tinha Erik completado dezoito anos e podia dizer-se um especialista em vários tipos de flores e plantas africanas. Foi essa uma das razões pelas quais um holandês de visita a Kumasi o convidou para trabalhar com ele na Europa. E assim se mudou Erik Badu para Roterdão, com papéis legalizados (um luxo), emprego assegurado e uma maior proximidade do seu sonho. O problema é que, sem qualquer passado como jogador de futebol, a não ser alguns treinos no clube Asante Kotoko FC, ficaria difícil encontrar quem o aceitasse até para treinar. Mas acabou por encontrar lugar no VOC Rotterdam, uma equipa amadora, onde durante três épocas disputou uma média de trinta minutos por ano, sendo, em troca, responsável pelo tratamento dos relvados do clube.
Apesar de parecer coisa pouca, entrar em campo com uma camisola de uma equipa de futebol encheu Erik de brios. Começou então a desenhar-se na sua cabeça um plano para subir na vida de futebolista. Para isso precisava de ajuda, e acabou por encontrá-la num agente de futebolistas inglês que, ouvindo as palavras Gana e Holanda, logo se pôs a imaginar as várias possibilidades de lhe encontrar colocação numa equipa britânica. Assim viajou Erik Badu para Inglaterra: como jogador de futebol.  Os seus primeiros meses em Inglaterra seriam difíceis para qualquer um, mas não o foram para ele. Passou-os em consecutivas experiências em clubes como o Port Vale, o Gillingham ou o Bournemouth, acabando sempre por não assinar contrato com nenhum deles. A sua salvação acabou por ser encontrada no Blyth Spartans, uma equipa dos campeonatos regionais, onde pôde finalmente mostrar os seus dotes em jogos oficiais.
Erik Badu tratava muito bem a relva e muito mal a bola. Mas isso não o impedia de ser um dos mais dedicados nos treinos e nos jogos em que lhe era dada a oportunidade de jogar. Na equipa do Blyth chegou até a marcar um golo num dos nove jogos em que participou. Quando chegou o final da época, acabou dispensado. Mas isso não o fez desistir. Convenceu o seu empresário a telefonar a todos os treinadores da primeira liga inglesa, com o intuito de conseguir mais um período de experiência, agora que se sentia em melhor forma, dado os treinos constantes. Perante várias recusas, e durante um telefonema para o treinador do Southampton, já a época começara há algum tempo, o seu agente lembrou-se de dizer que Erik Badu jogara nos escalões de formação da selecção ganesa e era amigo de George Weah, a esse tempo, um dos melhores jogadores do mundo.
Está para explicar como é que o treinador do Southampton caiu na história inventada pelo agente. A verdade é que caiu tão bem que, mais que um período de experiência, ofereceu a Erik Badu um contrato de dois meses, tentando evitar que ele acabasse noutra equipa até ao final da época de transferências. Quando Erik chegou ao clube, o seu rosto era só felicidade. Novembro é um mês de chuva intensa nas ilhas britânicas e a sua estreia pela equipa de reservas acabou por ser adiada, devido ao mau estado do relvado. Nos treinos, Erik surpreendia os seus colegas pelo seu pouco ortodoxo estilo de correr, não tendo sido sem espanto que o viram na lista de convocados para o jogo do seguinte fim-de-semana. A verdade é que, devido a lesões e a uma expulsão no jogo anterior, não sobravam avançados disponíveis no plantel. Erik tinha então a sua oportunidade de ouro de aparecer num jogo da Primeira Liga.
Os deuses que sempre o abandonaram até este dia, quiseram premiar-lhe a perseverança. Por volta da meia-hora de jogo, o avançado do Southampton, Matthew Le Tissier, lesionou-se e Erik Badu foi chamado para o substituir. O público ovacionou aquela contratação misteriosa, tão querida do treinador. A verdade é que o que se seguiu foi uma das páginas mais risíveis da história do futebol inglês. Erik Badu correu como um inocente pelas mais estranhas linhas do campo, não conseguiu controlar uma bola, em suma, denunciou, em poucos minutos, toda a sua falta de jeito para praticar futebol. Na bancada, o público dividia-se entre os risos e os apupos ao treinador, o qual assistia a tudo aterrado e envergonhado.
Foram estes os minutos mais felizes da vida de Erik Badu. Jogou vinte e nove minutos na Liga Inglesa. No dia seguinte, apresentou-se no estádio para ser assistido pelo médico, como se fosse devido a lesão que tudo lhe correra mal no dia do jogo. O seu contrato foi rescindido e nunca mais se viu Erik em Southampton. Na verdade, nessa mesma semana, regressara a Roterdão, retomando a sua posição na empresa do florista holandês. Acabou também por reconquistar o seu lugar como tratador de relva e como ocasional jogador do VOC Rotterdam. A única diferença é que agora, já não era o desconhecido rapaz que pouco jogava. Era o mundialmente famoso Erik Badu, o homem que contra tudo e contra todos, foi profissional em Inglaterra, mesmo que por poucos minutos.

(Com uma especial dedicatória a Graeme Souness e Ali Dia, dois homens que tornaram esta história possível antes mesmo dela ter sido inventada)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Bartleby de Sarriá


Enrique Vicenç viveu sempre no bairro de Sarriá, à sombra do estádio do Real Español, seu clube de razão e coração, como ele gostava de dizer. O Real Español é a maior equipa de Barcelona, se exceptuarmos uma outra, da qual Enrique nem se atrevia a dizer o nome. Desde bem pequeno, era vê-lo a correr para as bancadas do Sarriá (que também era o nome do estádio), a vibrar pela equipa das camisolas azuis e brancas, a gozar as vitórias e a chorar as derrotas do seu clube. Não espanta por isso que, mal teve idade para tal, Enrique Vicenç se tenha tornado jogador do Real Español.
Enrique foi sempre o jogador mais destacado das escolas do Real Español. Para além da enorme classe que transportava para dentro de campo, sentia também a camisola do clube como nenhum outro. Diz-se que cedo deixou a escola para que pudesse passar mais tempo junto do Sarriá. E então, bem novo, acumulou com a carreira de jogador uma série de pequenas tarefas na estrutura do clube, desde engraxador de botas, até varredor de bancadas, apanha-bolas ou mesmo técnico de equipamentos. Para Enrique, tudo se fazia, desde que fosse no Real Español.
Na memória de todos os aficionados do Real Español ficaram gloriosos encontros de juniores contra o FC Barcelona (ou, os outros, como dizia Enrique), quando Vicenç pegava na bola e se encantava a fintar todos aqueles que lhe apareciam pela frente, até voltando atrás para fintar pela segunda vez alguns deles, antes de finalizar em golo as brilhantes jogadas. Enrique Vicenç era um fabuloso jogador, um apaixonado pelo seu clube, um odioso adversário dos seus rivais, e tudo isso fez com que crescesse à sua volta uma lenda, um mito apenas semelhante aos dos mais antigos, de que seria ele o líder do primeiro Real Español campeão de Espanha. Era nisso que todos acreditavam.
A ambição de Enrique, por seu lado, não era menor. É claro, ele sonhava com o dia em que pudesse festejar o campeonato no seu Sarriá, rodeado de todas as honrarias guardadas para os heróis dos grandes títulos. Mas também se imaginava a capitanear a equipa do Real Español vencendo uma Taça do Rei, que lhe fugia desde 1940, ou então conquistando uma taça europeia, a Uefa, a das Taças, a dos Campeões até, fazendo o nome do seu clube brilhar entre os melhores do mundo. Era com isso que Enrique sonhava, ele que era o melhor jogador de sempre formado no Real Español.
Quando no início dos anos oitenta se tornou profissional, Enrique Vicenç estava mais perto do que nunca de cumprir o seu sonho. Tudo se confirmava, agora, daquilo que se esperava deste jovem jogador. Os brilhantes jogos no campeonato, as incríveis lutas nos jogos da Taça do Rei, as chamadas à selecção. Enrique era o pólo da atenção de todos aqueles que viam os jogos do Real Español . Depois de anos de lutas infrutíferas, em 1988 chegou a grande oportunidade de Vicenç.  Depois de eliminar AC Milan, Inter de Milão, Viktovice e Club Bruges, o Real Español chegou à final da Taça Uefa para enfrentar o Bayer Leverkusen.
No dia 4 de Maio de 1988, 42000 pessoas enchiam o Estádio Sarriá. Enrique Vicenç saiu em ombros, depois de marcar dois golos na vitória de 3-0 da sua equipa. Os de Barcelona sorriam com a possibilidade tão próxima de conquistar um troféu europeu. Muitos deles foram até Leverkusen para o jogo da segunda mão. A realidade nunca foi tão dolorosa para os adeptos do Real Español. Com uma primeira parte a cumprir as expectativas, os espanhóis acabaram por sofrer três golos na segunda parte, perdendo no desempate das grandes penalidades. Pior que tudo, foi Enrique Vicenç que falhou a última penalidade.
Ele tinha 26 anos e abandonou o futebol. Quando no final do Verão de 88 a equipa do Real Español voltou aos treinos, Enrique Vicenç não apareceu. Os adeptos, apesar da desilusão de Leverkunsen, acreditavam ainda que seria Enrique o líder das conquistas do seu clube e esperavam que ele não os decepcionasse na próxima oportunidade em que chegassem a uma final. Viam-no passar na rua, sempre um pouco cabisbaixo, e muitos acreditam que ele passeava em volta do Sarriá em dias de jogo, como se tentasse ganhar coragem para voltar a entrar no estádio que tinha papel principal em todos os seus sonhos.
Os adeptos sofriam com esta opção de Enrique. E embora isso não os tenha consolado, um texto de Pere Gimferrer na revista Destino orientou-os. Comentando que a carreira de Vicenç estava encerrada para sempre, dizia Gimferrer: “Mas nos olhos (de Vicenç), mais serena, pulsa a mesma chispa: um fulgor visionário, agora secreto na sua lava oculta […]. Para lá do imediato, pressente-se um surdo rumor de oceanos e abismos: Vicenç continua pelas noites sonhando jogadas e golos, embora já não os marque.”
Futebol não jogado, mas vivido pela mente: um final belíssimo para alguém que deixa de jogar.

(Nota: os dois últimos parágrafos são uma transcrição, modificada, de outros dois parágrafos do livro Bartleby & Companhia, de Enrique Villa-Matas.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Antes inventado


Descendente de uma família das Antilhas, Thierry Henry nasceu nos arredores de Paris, tendo sido aí que despontou para o futebol.  Desde cedo que o seu estilo felino de pegar na bola e avançar pelo terreno de jogo prometia um grande jogador. Talvez tenha sido por isso que, durante a sua formação, foi evoluindo de clube em clube, recebendo sempre promessas de mais apoio e mais qualidade na preparação das suas características. Les Ulis, Palaiseau e Viry-Châtillon foram os pequenos clubes onde Henry foi acompanhado de seu pai, que era quem o obrigava a apresentar-se nos treinos, coisa que, para o jovem Thierry, não fazia parte das prioridades.
Aos dezassete anos, após ter sido várias vezes observado, Henry assinou pelo AS Mónaco. Aí completou a sua formação e estreou-se como jogador da equipa principal. Começava então a fulgurante carreira do jovem no campeonato francês, com direito a chamadas à selecção de sub-20 e, pouco depois, também à selecção principal. Henry era um avançado que jogava descaído na esquerda, utilizando a velocidade e a finta como suas principais armas. Com apenas vinte e um anos, Thierry Henry já fazia parte da selecção francesa que foi campeã mundial, o que o fez passar a ser conhecido internacionalmente.
Bastaram apenas mais quatro meses para que Henry fosse negociado para um dos maiores campeonatos do mundo, o italiano. No entanto, as suas características exigiam espaço de execução  e isso era algo que os adversários pouco lhe permitiram nessa época. Assim, acabou por deixar a Juventus e assinar pelo Arsenal de Londres, onde foi reencontrar o treinador Arséne Wenger. Acabou por ser em Inglaterra que Henry cumpriu tudo aquilo que havia prometido. Centenas de jogos e golos obtidos com a camisola vermelha e branca do clube londrino, dois campeonatos, três taças, mais um título europeu de selecções. Henry tornou-se, de facto, num herói.
Curioso, no entanto, é o facto de no futebol os heróis terem tanta atracção pelo abismo. Fosse porque se cansara da vida em Londres, do estilo pouco atraente que o Arsenal colocava agora no seu jogo, constantemente ultrapassado pelos adversários na classificação, fosse, ainda, por se sentir atraído pelas sereias de Barcelona, Thierry Henry acabou por assinar pela grande equipa da Catalunha. Aí continuou a sua senda de títulos, mas o brilho já não era o mesmo. Ganhando taças em Espanha e na Europa, Thierry Henry era apenas uma peça da engrenagem blaugrana, sem a admiração que lhe era votada nos tempos do Arsenal.
Será que os heróis do futebol são personagens passageiras? Será que não há nada que possam fazer para se manter, sempre, nos corações daqueles que enchem estádios para os ver? Será que era nisso que Thierry Henry pensava quando, a 18 de Novembro de 2009, já em período de prolongamento do play-off de apuramento Mundial contra a Irlanda, decidiu meter a mão à bola, originando assim o golo que apurou a França? A verdade é que, na senda do apagamento da sua importância no clube onde jogava, este episódio causou uma onda de indignação à volta do seu nome. O até ali menino-quase-perfeito, aparecia agora como vilão do anti-fairplay, o que era um enorme dano à sua imagem.
Para piorar as coisas, só mesmo a carreira da França no Mundial de 2010, com Henry a assistir a todos os jogos sentado no banco, só entrando quando já nada parecia adiantar a um conjunto que tentava sobreviver a lutas internas de protagonismo e poder. Henry perdera o seu estatuto de capitão de equipa, a sua importância e influência junto dos seus jovens colegas de equipa, até o treinador perdera confiança nas suas qualidades para ajudar a selecção. A única pessoa que pareceu dar-lhe ainda algum valor foi o Presidente da Republica, que o recebeu mal a equipa foi eliminada, numa reunião que mais pareceu uma ida do aluno queixinhas à sala do director da escola.
É estranho como um herói se desgasta. Como uma figura que todos respeitam, em poucos meses, se vê envolvida em situações que a tornam dispensável, vergonhosa, infame. Estranho também como, a certas personagens, preferíamos inventá-las. Poder pensar que, ao acabar um texto, essa personagem ficaria quieta e sossegada na página, incapaz de tomar mais alguma decisão que a faça perder, uma outra vez, aquele brilho que nos originou nos olhos quando a vimos correr na relva pela primeira vez.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ser Futebolista


Marko Prso lembra-se bem do dia 22 de Junho de 1986. Foi o dia em que teve a certeza de que iria ser jogador de futebol. Estava na casa dos primos do seu pai, em Pristina. Um dos seus afastados primos tinha casado no dia anterior e, como era tradição da família Prso, todos se juntaram em volta desse casadoiro familiar. A família Prso estava espalhada por toda a Jugoslávia, dez irmãos nascidos em Belgrado mas divididos pelas diversas províncias, quase todos, em trabalhos ligados à administração pública. Então, nesse dia do Verão de 1986, Marko estava em frente à televisão a ver o jogo do Mundial do México, Maradona recebeu a bola ainda atrás do meio campo e correu entre uma série de adversários ingleses até, praticamente, entrar baliza dentro com a bola nos pés. Marko ia ser futebolista.
Na verdade, Marko já jogava futebol há uns anos, na escola do FK Rad. Era o clube que ficava mais perto da sua casa no Bairro de Banjica, curiosamente, no caminho para a escola que frenquentava. Quando Marko Prso revelou qualidades para ser futebolista, o seu pai decidira inscrevê-lo no clube. Digamos que o FK Rad compensava na sua escola de formação a falta de títulos relevantes no seu historial. Mas havia sido, claramente, uma escolha de proximidade. Marko Prso cresceu como homem e como jogador no relvado do Estádio Kralj Petar. O seu futebol nunca mereceu chamadas às selecções jovens porque essas eram dominadas pelos grandes clubes da cidade e pelos clubes de Zagreb. Mas foi sem surpresa que, aos 17 anos, se estreou na equipa principal do FK Rad.
Nessa época de 89-90, Marko jogou apenas três vezes na equipa. Dividia-se entre os treinos, os jogos nos juniores e a escola secundária, onde pensava conseguir colocação na Universidade. Marko era um exemplo dos jovens criados na disciplina dos regimes de leste. Desportista e estudante dedicado, conseguia, graças ao esforço da sua família e à benesse de dirigentes e professores, conciliar ambas as carreiras. A verdade é que, no final dessa época, realizou os exames necessários para se tornar estudante da Universidade de Belgrado. Na época seguinte, a vida de Marko começou a sofrer com a inconstância política do seu país. As notícias vindas dos seus familiares eram cada vez mais preocupantes e, na Universidade, Marko assistia a longos debates de estudantes oriundos de diversas repúblicas que ameaçavam, agora, declarar a sua independência.
Ainda assim, o futebol de Marko Prso encontrava espaço para sobressair. Sendo utilizado regularmente na equipa do FK Rad, Marko acabava por beneficiar do facto de vários jogadores croatas e eslovenos se recusarem a jogar na Selecção da Jugoslávia para se sentar, pela primeira vez, no banco da Selecção, no dia 16 de Maio de 1991, no jogo contra as Ilhas Faroé. Esse jogo foi tão mais significativo por, numa altura em que o território já começava a provar os primeiros dissabores da guerra, ter sido o último realizado pela equipa da Jugoslávia unificada em casa. Marko Prso voltou a ser convocado para os jogos seguintes, sempre sem ser utilizado, e esteve na concentração da Selecção que acabou por ser excluída do Euro 92.
O sonho de Marko tropeçava assim numa guerra que ele compreendia mal. No Verão de 92, o seu pai era um homem abatido, desconhecendo o paradeiro de três dos seus irmãos, algures na Bósnia ou no Kosovo. Marko Prso percebeu que, mais importante que o sonho de futebolista, era a sua família, aquela mesma família que se juntava em redor dos seus antes da guerra. Então alistou-se no Exército Sérvio e partiu para o conflito. Marko fizera isto para que o seu pai pudesse, através dele, manter-se informado do que se passava na guerra, no dia-a-dia das populações e dos militares. Uma forma de tentar sossegar o seu pai entregando-se ao suplício de lutar por algo que lhe custava definir. Era uma opção estranha, mas uma opção que todos, em sua casa, compreenderam.
Entre 1992 e 1995, Marko Prso não jogou futebol. Só quando voltou a instalar-se em Belgrado, suportando mal a notícia da morte de quatro dos seus tios e de nove dos seus primos, Marko Prso voltou a colocar a hipótese de tocar numa bola. O jovem estudante e desportista tinha ficado para trás. Ele era agora um homem, definitivamente marcado pela experiência da guerra, com a cabeça tomada pela incompreensão. Precisou ainda de muito tempo para acertar o seu passo com o passo de uma cidade em paz. Mais ainda para se sentir seguro entre outros homens e mulheres que, na verdade, não lhe queriam mal nenhum. E um outro tanto para poder voltar a vestir uma camisola e a entrar num relvado.
Em Setembro de 1999, Marko Prso foi suplente utilizado no jogo entre o Hadjuk Belgrado e o Zemun. Com a camisola branca e vermelha do Hadjuk, perto dos 80 minutos de jogo, Marko Prso dominou a bola junto à linha do meio-campo, avançou entre o surpreendido e o raivoso entre os defesas adversários e entrou com a bola pela baliza dentro. Na bancada, o seu pai e dois dos seus tios choravam. Marko Prso correu até à linha lateral, com um sorriso triste. Marko Prso sabia que era um futebolista.  

domingo, 8 de maio de 2011

O futebol real-visceralista



Dele se esperava que fosse o novo grande craque do futebol mexicano. No início dos anos setenta vivia-se um clima de prosperidade no futebol mexicano, com os estádios cheios de gente que procurava encontrar no campeonato local o mesmo futebol espectacular das grandes selecções, como a do Brasil. No entanto, faltava encontrar um jovem jogador que pegasse em todo este entusiasmo e se transformasse em símbolo. Dele se esperaria que fosse o novo grande craque do futebol mexicano. O seu nome era Ulisses Lima. 

Ulisses Lima nasceu a 25 de Dezembro de 1953. Desde muito cedo frequentou as escolas de formação do Pumas-Unam, a equipa da Universidade da Cidade do México. O seu futebol atraente, o forte carisma que detinha e o natural entusiasmo mexicano levava a que centenas e centenas de adeptos se juntassem para ver as suas exibições nas camadas jovens do Pumas. Parecia ser uma questão de tempo até que fosse chamado para a equipa principal. Toda a gente esperava que isso acontecesse, toda a gente queria o craque entre os maiores. E assim foi.

A grande estreia de Ulisses Lima na equipa sénior do Pumas deu-se em Janeiro de 1970. Era um adolescente iluminado, o jovem Ulisses. Parecia sempre optar pelo movimento mais complicado, o passe mais arriscado, a corrida mais impossível. Era também um provocador das tácticas e das linhas definidas pelo treinador. Em campo, Ulisses mandava, decidia. Apesar desse facto se tornar um pouco irritante para os seus colegas de equipa, a verdade é que no final de cada movimento, Ulisses originava uma jogada perigosa ou de golo. E tudo lhe era perdoado no momento do festejo.

Tanto furor a sua presença criava que acabou por ser chamado para a equipa nacional no Mundial de 70, realizado no seu país. O ainda adolescente Ulisses Lima viu os quatro jogos da carreira do México sentado no banco, mas a simples presença naquele quadro fizeram-lhe sentir que tinha atingido o auge. Terminado o Mundial, o seu contrato profissional foi melhorado e Ulisses pôde mudar-se de casa dos pais para um apartamento bem no centro da cidade. Conquistado o mundo do futebol, a Ulisses faltava agora a conquista de vários outros mundos.

Começou a ser visto na companhia de alguns adolescentes ligados à literatura. Ele e o seu melhor amigo, Arturo Belano, eram denominados como os líderes de uma nova corrente, intitulada de "realismo visceral". Arturo Belano era o verdadeiro conhecedor da poesia e da literatura, já Ulisses Lima era o agente provocador, capaz de aparecer em saraus ou em apresentações de livros a insultar os maiores nomes da literatura mexicana. A presença deste grupo de jovens, no entanto, não era tão incómoda quanto isso. Eram os novos, tinham direito às suas aventuras, ninguém lhes dava assim tanta importância.

Não era isso, ainda assim, o que eles sentiam. Para Ulisses Lima, a literatura tornara-se numa missão. Agora passava a maior parte das suas noites nos bares mais escuros da cidade, como se procurasse um encontro com um misticismo que lhe alterasse o curso da vida. Continuava a jogar no Pumas, e por isso era reconhecido, embora não colocasse em campo a mesma magia de antes. Disso se ressentiu a selecção mexicana que acabou por ficar de fora do Mundial de 74. Ulisses Lima tinha agora 21 anos e ainda se esperava que ele fosse o grande craque do futebol mexicano. Só ele já não acreditava em tal coisa.

Ulisses Lima e o seu amigo Arturo Belano continuavam a sua investigação acerca do "realismo visceral" e começaram a planear uma viagem pelo México. As aparições de Ulisses Lima eram agora mais esparsas. Faltava muito aos treinos, facto que lhe era perdoado pelos treinadores devido a ser um dos heróis dos adeptos dos Pumas. Mas também isso parecia estar agora cada vez mais em causa, a tal ponto que já havia sido afastado da selecção e a sua presença em campo parecia não adiantar nada para o sucesso da equipa mexicana. De qualquer forma, a data da viagem planeada pelos dois amigos aproximava-se e nada do que pudesse acontecer no seu clube lhe alteraria os planos.

O último jogo de Ulisses Lima pelo Pumas foi contra a equipa do Tecos-UAG. Ulisses Lima foi mais uma vez titular, mas uma noite mal dormida e o seu total alheamento do jogo nada de bom prometiam. Dizem até que Ulisses entrou em campo a ler um livro de filosofia alemã e que, durante os poucos mais de vinte minutos que esteve em campo, o transportava dentro dos calções. O treinador acabou por não aguentar mais ter aquele peso morto em campo e substituí-o por um jovem jogador chamado Hugo Sánchez, que poucos pareciam acreditar que se tornasse sequer num jogador de nível médio.

A viagem de Ulisses Lima e Arturo Belano realizou-se com destino incerto. Vários relatam que se dirigiram para Norte, em busca de Cesárea Tinajero, a mãe do "realismo visceral". No entanto, nenhum desses relatos pôde ser comprovado por qualquer facto concreto. A única coisa que se sabe é que, durante vinte anos, Ulisses Lima desapareceu do mapa. A isso não deverá ser estranho o dado de, no Deserto de Sonora, não existirem clubes de futebol.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Quem é Ole Fritsen


Martin Olesen nunca seria um rapaz de quem se diria poder vir a ser um jogador de futebol. Desde pequeno que Martin era o mais gordinho da sua turma, usava uns óculos bem graduados, era, até, o objecto do gozo de todos os seus colegas. Martin passava imenso tempo sentado à beira do campo de futebol da sua escola, onde os outros rapazes jogavam todos os dias com grande animação. Não se poderá dizer, ainda assim, que Martin fosse um rapaz infeliz. Aqueles dias, junto ao campo, davam-lhe cada vez mais a certeza de que o seu dia de glória haveria de chegar.
Quando completou doze anos, apresentou-se num treino de captação do Vejle BK, a equipa da sua cidade. A sua técnica era pobre, mas como tinha crescido bem mais que os seus colegas, os treinadores consideraram que ele seria uma boa aposta. Teria que trabalhar bastante para poder jogar na equipa, mas só o facto de acreditarem nele fez com que Martin sentisse que tudo aquilo com que sonhava era, realmente, possível. Ainda assim, a sua carreira no Vejle era feita de muito treino e poucos jogos. Raramente era chamado para jogar no campeonato. O treinador incentivava-o a treinar mais, a perder peso, Martin acreditava, mas não jogava.
A vida não era fácil para Martin. Pelo menos enquanto futebolista. Os treinadores apostavam nele, ano após ano, como se fosse uma missão de todo o clube. Martin continuava a estudar, a ocupar os seus dias a ver os colegas jogar futebol, a ver todo o futebol que podia na televisão. Estando já bem perto de terminar a sua formação como futebolista, Martin Olesen percebia mais de futebol do que qualquer rapaz da sua idade. Isso, parecendo que não, dava-lhe uma vantagem em relação a todos os seus colegas que jogavam muito mais do que ele. A inteligência dentro de campo. E, queria acreditar Martin, foi isso que o fez ser chamado para jogar na equipa principal.
Em 1994 o treinador da equipa era Ole Fritsen, um homem do clube, com passado de jogador e uma longa carreira na formação. Ole Fritsen conhecia bem Martin e passou a utilizá-lo como defesa central, sempre que, perto do final do encontro, a equipa precisava de segurar a vantagem. Durante cinco anos, Martin foi um jogador fundamental no Vejle, apesar de ter como colegas de equipa alguns craques, como Thomas Gravesen. Em todas as vitórias do Vejle, Martin Olesen aparecia como o segurança do resultado. E isso fê-lo ser também um dos jogadores preferidos da massa associativa do Vejle. Ainda assim, quando em 1999, Ole Fritsen saiu do clube que passava por uma grave crise financeira, Martin Olesen foi dispensado da equipa.
A verdade é que Martin nunca se esforçou para procurar uma nova equipa. Encontrou trabalho numa empresa de cargas no porto de Vejle e, todos os fins de tarde, visitava o seu antigo treinador. Com Ole Fritsen, Martin aprofundava todos os seus conhecimentos. Percebia agora todas as movimentações dos jogadores em campo, percebia as necessidades de um conjunto perante um adversário mais forte, percebia a importância de todas as decisões no decorrer dos noventa minutos. Martin sabia também que toda a sua carreira de futebolista era devida a este homem que vira nele, mais que um potencial futebolista, um apaixonado pelo futebol, que precisava de ser guiado e acompanhado, de maneira a fazer dele um especialista.
Não espantou por isso que a carreira de Martin tenha acabado tão cedo e que em 2003 tenha sido apresentado como adjunto de Ole Fritsen no Fredericia FC, uma equipa da segunda divisão dinamarquesa. Durante dois anos partilharam o banco daquela equipa, correndo a meio da tabela do campeonato, numa equipa cheia de juventude, como era sempre vontade de Fritsen, apostando em jogadores da formação, desejosos de mostrar trabalho para conseguirem proveitosos contratos na primeira divisão ou na Alemanha, destino preferencial dos jovens jogadores dinamarqueses. No final dessa época, Ole Fritsen decidiu dedicar-se a ser apenas olheiro do Groningen, equipa holandesa para quem trabalhava há muitos anos. Martin foi indicado por ele para trabalhar nos escalões de formação dos holandeses.
Martin Olesen nunca seria um rapaz de quem se diria poder vir a ser um jogador de futebol. Mas era agora um competente treinador, sempre muito atencioso com todos os atletas, capaz de lhes descobrir talentos dos quais eles próprios nem desconfiavam. Continuava a falar todos os dias com Ole Fritsen, o seu mentor. O trabalho de Martin era reconhecido pelos dirigentes do Groningen que, apesar da sua juventude, se preparavam para lhe renovar o contrato de treinador. Em Maio de 2008, Ole Fritsen morreu, vítima de um ataque cardíaco. Martin ficou muito afectado pelo acontecimento, sentindo, de repente, um enorme vazio na sua vida, um vazio que sempre ali estivera, coberto pela presença de Fritsen. Quando, no Verão de 2008, Martin chegou a Vejle para gozar as suas férias, a primeira coisa que fez foi visitar a sua campa.
A notícia do suicídio de Martin deixou bastante consternados todos aqueles que o conheciam. Não se aceita que um jovem com uma carreira prometedora de sucessos, termine assim com a vida. No entanto, as cartas que Martin deixou aos seus mais próximos, o seu pai, o seu irmão, a esposa de Ole Fritsen, eram claras no motivo. Tinha sido Ole Fritsen a tornar possível aquilo que ele era, tinha sido Ole Fritsen quem evitara que ele fosse o rapaz gordinho, de óculos bem graduados, alvo do gozo de toda a gente. Tinha também sido Ole Fritsen a dar-lhe oportunidade de ser jogador profissional, treinador profissional, dando-lhe emprego nas equipas com quem tinha ligações. Sem Ole Fritsen, a vida perdera o sentido. Ele não se sentia um projecto de Ole. Ele sentia-se o próprio Ole. Daí ter que morrer com ele. 

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O estranho caso do chileno César Rosh


César Rosh nasceu em San Felipe, na região chilena de Valparaíso, descendente de judeus fugidos da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. César foi uma criança normal, andou na escola, correu nas ruas, fez todas as brincadeiras que um miúdo chileno faria em San Felipe. No entanto, à medida que crescia, aumentava nele uma sensação de deslocamento para a qual não encontrava explicação. Muito cedo começou a jogar futebol no Unión, o clube local, onde rapidamente se tornou numa das sensações do futebol chileno, tal o seu talento e compleição física, que faziam dele um volante característico das equipas sul-americanas, jogando bem em frente dos defesas centrais, lançando ataques com passes de alta precisão.
Foram essas as qualidades que o levaram a ser convocado para a equipa chilena no Mundial de Sub-17, realizado em 1993, no Japão. Dessa equipa faziam parte alguns jogadores que depois tiveram grandes carreiras profissionais, como Sebastian Rozental (outro descendente de judeus europeus) e Héctor Tapia. César Rosh destacou-se na equipa chilena que chegou até ao terceiro lugar no campeonato. Na memória ficou um jogo épico contra a Polónia, que viria a garantir a passagem do Chile à fase seguinte. A perder por 1-3 e a precisar do empate, os chilenos fizeram uma fabulosa segunda parte e asseguraram esse desejado 3-3.  Naquela tarde de 26 de Agosto, em Hiroshima, César Rosh acabou por ser eleito a figura do jogo.
Muitas vezes estes campeonatos garantem aos jogadores um lugar numa liga profissional europeia. Com César Rosh foi quase assim. Apesar de ter recebidos vários convites de equipas espanholas e francesas, Rosh acabou por seguir para Israel. Alguma coisa lhe dizia que esse contacto com as suas raízes familiares lhe seria proveitoso, talvez uma forma de compensar a sua sensação de deslocamento. E assim, perto de completar 18 anos, César Rosh chegou a Jerusalém para vestir a camisola amarela do Beitar FC. César aprendeu rapidamente a falar fluentemente hebraico, língua que já lhe era conhecida pelo facto dos seus avós a falarem em casa. Dado ser um descendente de Judeus, o seu objectivo era obter  a nacionalidade israelita, apesar de continuar a representar as selecções chilenas nas competições futebolísticas.
A felicidade de César foi-se, entretanto, misturando com a nebulosidade da sua carreira futebolística.  Tendo ficado durante várias épocas no Beitar FC, César fez parte da equipa que se tornou bicampeã israelita nos anos de 1997 e 1998. Foi também durante esses cinco anos que César foi aprofundando os seus conhecimentos sobre a realidade israelita, tendo sido chamado  a cumprir o serviço militar obrigatório, por ter finalmente obtido a nacionalidade,  quando, aos 22 anos, era mais requisitado do que nunca.  Durante três anos, César manteve-se como integrante do plantel do Beitar FC, embora as suas aparições fossem condicionadas pelos exercícios em que estava destacado. Quando, aos 25 anos, voltou a ser um civil, César era um homem diferente.
César havia já renunciado a representar o Chile antes de entrar no exército israelita, no entanto, voltou a anunciar-se disponível, para surpresa de muitos dos jornalistas desportivos do seu país, mas para gáudio dos dirigentes da equipa que, nessa altura, fazia uma travessia no deserto, sem grandes sucessos na Copa América e sem conseguir qualificar-se para os Mundiais de Futebol. Profissionalmente, César Rosh fez ainda mais uma época no Beitar FC, tendo sido transferido, em 2002, para o Zamalek, do Egipto, transferência que causou algum furor, por se tratar de um judeu em terras árabes. Mas a verdade é que o seu passaporte chileno e o seu estilo de jogo lutador convenceram uma massa adepta habituada a ver sul-americanos no seu plantel. César Rosh manteve-se durante três épocas no Egipto, onde conquistou um Campeonato Nacional e uma Liga dos Campeões Árabes.
Muito requisitado nos campeonatos europeus, César Rosh transferiu-se então para o Ankaraspor, equipa da capital da Turquia, que se estreou nesse ano nas competições europeias. Era mais uma escolha estranha no seu currículo de jogador, já que a equipa da Ancara nunca conseguiu melhor do que lugares de meio da tabela na Super Lig Turca. Mas César Rosh por ali se manteve durante outras três épocas. O que não passou despercebido aos seus colegas foi o facto de César Rosh ser, talvez, o sul-americano mais reservado da história do futebol. Pouco participava das saídas dos seus colegas, nunca nenhum foi convidado para ir a sua casa e os seus passatempos incluíam coisas tão estranhas e invulgares como coleccionismo de revistas militares turcas e observação de aviões.
No Verão de 2008, César Rosh voltou a Israel onde, depois de ter assinado contrato com o Beitar FC, poucos jogos fez. Durante os primeiros meses, foi notória a sua aproximação a alguns elementos da claque do clube, La Família Ultras, muito ligada à extrema-direita israelita. A verdade é que César nunca perdeu a ligação com o exército israelita enquanto esteve a jogar no estrangeiro ou nas suas viagens para representar a selecção chilena. Muitos desconfiavam da sua ligação aos serviços secretos, outros diziam tratar-se de uma ligação a grupos paramilitares saídos do exército, outros ainda defendiam que César Rosh, sendo um grande futebolista, sofria de alguns distúrbios de personalidade, sempre a imaginar teorias da conspiração em tudo o que se passava à sua volta.
A verdade é que, apesar de ter contrato, César Rosh deixou de comparecer aos treinos do Beitar FC, não mais respondeu a nenhuma convocatória da selecção chilena, nem se dispõe de qualquer registo futebolístico com o seu nome em nenhuma parte do mundo. Em suma, desapareceu sem deixar rasto. Coisa que só alguns espiões dos serviços secretos e uns poucos loucos conseguem na vida. 

quinta-feira, 17 de março de 2011

Odisseia


Natural da ilha de Ítaca, a aventura  de Giannis Ladakis começa no pequeno clube da sua cidade, o Keravnos Vathi, onde jogou na equipa principal com apenas catorze anos. Considerado um talento natural, Ladakis foi convidado a ir para as escolas de formação do OFI Creta, um histórico clube grego. No entanto, Ladakis nunca se adaptou nem à ilha, nem às gentes. Tendo completado ali toda a sua formação e os primeiros anos de profissional, Ladakis, em jeito de brincadeira, chamava à sua estadia em Creta “o meu muito pessoal Cerco a Tróia”. E a verdade é que um dos seus últimos jogos foi uma guerra contra os italianos do Atalanta. Num jogo a contar para a Taça das Taças, a 27 de Outubro de 1987, Ladakis foi um dos grandes heróis que permitiu a vitória da equipa da casa. No entanto, uma grave lesão nos ligamentos do joelho esquerdo colocaram-no de fora o resto da época. Ladakis deixaria Creta no Verão seguinte.
Em 1988, Giannis Ladakis tornou-se o primeiro grego a jogar no campeonato sueco. Tal acontecimento deveu-se a um empresário que ele conheceu em tempo de férias, na Ilha de Creta. Ladakis era um autêntico guerreiro em campo. Um número dez com instinto sanguinário. Inequivocamente, um grego. Chegou à Suécia para jogar no Djurgardens IF, um clube de Estocolmo, conseguindo nesse ano ir até à final da Taça local. No entanto, para Ladakis, jogar naquele campeonato era um constante encontro com gigantes. Tendo pouco mais de 1m70, o médio grego enfrentava, semanalmente, defesas com mais vinte centímetros do que ele. Era uma guerra dura, fisicamente extenuante, que nem o dedicado Ladakis acreditava aguentar por muito tempo.
No final do ano foi então transferido para o Viking Stavanger, da Noruega. Stavanger é conhecida por ser a cidade do vento, tanto que Ladakis se habituou, nos jogos em casa, a não fazer nenhum passe em profundidade. A única opção era mesmo a de jogar a bola rente à relva, aguentando o embate do Deus Eólio, que tanto dificultava o seu jogo. A sua passagem pelo campeonato norueguês não é, em nada, digna de registo. Na época de 89-90, o Viking ficou a meio da tabela, Ladakis nunca conseguiu expressar o seu futebol, e decidiu, uma vez mais, procurar maneira de ser feliz noutro lugar.
Giannis Ladakis era, nesta altura, um homem sem rumo. O seu empresário levara-o para a Irlanda, onde assinou pelo St. Patrick Athletic, uma equipa de Dublin. Pela primeira vez, o seu futebol parecia ganhar brilho longe de casa. A equipa sagrou-se campeã irlandesa nesse primeiro ano, Ladakis fez amigos entre os jogadores amadores que partilhavam consigo o balneário, pensou até que Dublin seria a sua cidade para sempre. Na verdade, esse título foi uma espécie de canto do cisne para o St. Patrick e para Ladakis. Acumulando dívidas, os jogadores foram saindo do clube. Ladakis, esse, desfez a ligação ao empresário, encontrou trabalho como biscateiro e entregou-se à bebida. Brilhando dentro do campo, todas as semanas, isso não era o suficiente para o fazer feliz. Ia assim perdendo a sua vida pelas ruas de Dublin. Foram quatro anos em que o declínio da equipa, depois do brilho do título, estava personalizado no declínio de Ladakis. E só no Verão de 94 Ladakis pareceu encontrar a sua Minerva, o que lhe augurou um futuro de boa sorte no regresso a casa.
Mas nem isso seria assim tão fácil. Inspirado a regressar a casa, Giannis Ladakis acabou por aceitar um convite de um colega que abrira um negócio na Ilha de Malta. O negócio consistia em receber e distribuir bebida por uma série de estâncias turísticas na Ilha. Giannis, valendo-se do seu passado de futebolista profissional, acabou por arranjar lugar na equipa do Rabat Ajax, que nessa época jogava na Segunda Divisão local. Enquanto em campo Giannis se arrastava, fora dele, as coisas não podiam correr pior. Por falta de licenças, de conhecimentos locais e de de alguma sorte, o seu colega irlandês regressou tão depressa a Dublin quanto tinha voltado, deixando Ladakis perdido em Malta, sem emprego, sem conhecimentos, salvo apenas pela alimentação que recebia do seu clube pelos préstimos dados em campo. Foi uma descida aos infernos que fez com que Giannis acordasse para a realidade. O regresso a casa estava agora mais perto do que nunca.
Não resistiu, ainda assim, ao canto da sereia que lhe prometia uma pequena glória futebolística antes de chegar a bom porto. Foi por isso que assinou contrato com o Alki Larnaca, equipa do campeonato cipriota. Foram três anos em que Giannis viveu como se de um grande jogador se tratasse. O clube cedia aos seus jogadores um estatuto de semi-profissionais. Treinavam todos os dias e faziam pequenos serviços no clube em troca do seu salário. De resto, podiam aproveitar a vida de Larnaca, um dos grandes centros turísticos desta ilha. Giannis Ladakis vivia feliz. O canto da sereia chamava-o para os abusos alcoólicos do passado, mas era agora um homem com mais de trinta anos, consciente de que precisava de se manter sóbrio para manter o emprego.
Pelo Chipre ficou até 1998, quando decidiu voltar a Vathi. Regressou também ao seu clube de origem, o Keravnos Vathi, um clube das ligas amadoras da Grécia. Quando fez o seu primeiro jogo, neste regresso, a maioria dos adeptos não o reconheceu. Do rapaz que tudo prometera, vinte anos antes, pouco sobrava. Giannis Ladakis não tinha entrado na história. Mas, por outro lado, cumprindo o destino do famoso Ulisses de Ítaca, Giannis tinha dado a volta ao seu mundo, resistido a todos os incidentes e acidentes do percurso, e chegava a casa, para ser feliz entre os seus. Por isso, ao ver a bola beijar aqueles pés calejados de tantas viagens e a encontrar, pela primeira vez desde o regresso, o caminho da baliza adversária, os adeptos do Keravnos souberam que o seu rei tinha voltado a casa. E sentiram-se felizes com isso.  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O Ferroviário


Tudo começou quando Silvério Pimenta, industrial português de Sá da Bandeira, investiu todo o seu dinheiro nos caminhos-de-ferro angolanos. O investimento foi um sucesso. Durante quatro décadas, a sua família viveu dos rendimentos do negócio de transporte e distribuição ligado à linha de Moçâmedes, na antiga colónia portuguesa. Mas o seu filho, herdeiro de parte do negócio, sentiu que a instabilidade sentida no norte do território acabaria por chegar ao sul, mudando-se para a África do Sul no início dos anos sessenta. São estas as origens de Peter Pimenta, um dos mais instáveis jogadores de futebol que passou pelos campos da África do Sul.
Peter Pimenta nasceu e viveu na Cidade do Cabo toda a sua infância. Filho de um funcionário dos Comboios da África do Sul, Peter era fascinado por essas máquinas de viagem. Cresceu numa cidade de emigrantes, falantes de línguas totalmente diferentes, valendo-se do inglês como intermediário. A África do Sul sempre foi um país atípico. Nação de vários povos, colonizados e colonizadores, fez da língua franca a sua língua materna. Peter, filho de brancos de Angola, um português desorbitado, era, ao mesmo tempo, estrangeiro e local. Nasceu já com o gene da viagem na pele, mas foi a jogar futebol que encontrou o seu lugar.
Peter Pimenta começou a jogar no Hellenic, o clube da comunidade grega, como o próprio nome denuncia. O futebol sul-africano sempre foi uma confusão de campeonatos. Ligas para brancos, ligas para negros, ligas para mestiços, como se a bola se queixasse da cor dos pés que vão dentro das botas. O Hellenic jogou, originalmente, no campeonato dos brancos, tendo sido uma das equipas que foi sobrevivendo às constantes fundações e uniões dos vários campeonatos. Quando Peter Pimenta foi convidado a assinar o seu primeiro contrato semi-profissional, o Hellenic era uma equipa que disputava sempre os primeiros lugares da tabela da National Soccer League.
Grandes nomes vestiram a camisola do Hellenic ao longo da sua história. Os “deuses gregos” eram conhecidos por conseguirem levar sempre muitos adeptos ao seu estádio. Também não era estranho ter um português a vestir a camisola deste clube. Sérgio dos Santos, Fernando Custódio, os irmãos Neves, todos eles foram referências para os seguidores do Hellenic. Mas Peter Pimenta tinha qualquer coisa fora do normal. Era um jogador muito baixo, com pouco mais de 1m60, rápido como ninguém a correr as laterais dos campos em que jogava. Era um extremo puro, mestre da finta, embora parecesse, durante grande parte dos jogos, que a sua cabeça viajava por outro lado.
Peter acabou por ser um dos beneficiados da abertura do regime sul-africano e do fim do apartheid. Desde que foi nomeado  treinador da selecção da África do Sul multi-racial, Clive Barker convocou Peter Pimenta para todos os jogos. Apesar de ser um jogador um pouco ausente, bastava que a bola lhe chegasse aos pés para maravilhavar a multidão e criar um perigo contra o qual era difícil encontrar antídoto. Clive Barker chamava-lhe a sua “pequena arma secreta” e Peter Pimenta adorava o epíteto. Foi assim que Pimenta acabou por ser um dos jogadores presentes na Taça das Nações Africanas em 1996.
Essa Taça foi o grande momento da história desportiva da nova África do Sul. Toda a população e todos os dirigentes se empenharam para que a imagem do país saísse reforçada internacionalmente. Peter Pimenta gozou esses dias com uma sensação dúbia. Por um lado sentia, como todos os seus colegas, que aquela atenção sobre os seus jogos poderia significar um futuro profissional no futebol. Por outro, para além de se ver obrigado a defrontar a equipa de Angola, país do seu pai, a cada momento cresciam-lhe as dúvidas sobre o que gostaria de fazer mesmo com o seu futuro. Se a ideia de ser profissional era uma porta aberta para uma série de viagens, talvez não fosse bem esse o tipo de viagem que Peter procurava.
Quando a 3 de Fevereiro de 1996, no Soccer City de Joanesburgo, Nelson Mandela entregou a taça de vencedor ao capitão Neil Tovey, a cara de Peter Pimenta na fotografia que guardei desse momento, demonstra todas as dúvidas que ele tinha acerca do seu futuro. E a verdade é que de todos os jogadores sul-africanos que venceram o troféu, Peter Pimenta foi quem seguiu o caminho mais obscuro. Enquanto alguns saíram para Inglaterra, a maioria dos jogadores ficou na nova PSL, a primeira liga da África do Sul democrática. Uma nova era começara no futebol sul-africano, pela primeira vez profissionalizado e com uma selecção que dava cartas no panorama continental.
Peter Pimenta tornou-se num nome perdido dos ficheiros do futebol profissional. Saiu da África do Sul para Moçambique, onde se estabeleceu na cidade de Maputo, sem ocupação definida. O que se sabe é que Peter Pimenta se tornou num dos jogadores mais importantes do Ferroviário de Maputo, onde entre 1996 e 2006 conquistou seis títulos de campeão nacional. Pode parecer estranho que um jogador abdique de um futuro profissional prometedor para ir jogar numa equipa que está fora dos grandes noticiários desportivos mundiais. Mas o amor de Peter Pimenta pelos comboios é capaz de explicar uma parte do seu caso.