quarta-feira, 30 de junho de 2010

Caça às bruxas

Era dado adquirido: no dia em que Portugal fosse eliminado, começaria a análise ao que correu menos bem nesta campanha africana. Vai ser preciso saber o que aconteceu com Nani, com Deco, com Cristiano Ronaldo. Todos eles, a quente, tiveram reacções que colocam em causa o treinador e a estrutura da federação (também me pareceu que o Hugo Almeida o fez, nas declarações no final do jogo, mas de uma forma mais diplomática). Todos eles, passado o momento da declaração, sentiram a necessidade de comunicar aos média que, afinal, não queriam dizer aquilo que tinham dito. Mas a verdade é que disseram, destapando, assim, o que parece ser um caso mal explicado no seio da nossa selecção. Era dado adquirido: a partir de hoje, começou a caça às bruxas. Teremos, até Setembro, tempo para perceber o que muda (ou não muda) na selecção.

Eduardo

Os grandes jogadores são assim: ultrapassam competições a jogar sempre a alto nível, sobressaem nos jogos mais difíceis, são seguros, confiantes, combativos, não deixam nunca de incentivar e/ou criticar os colegas, saem a chorar, quando perdem. Os grandes jogadores são como o Eduardo foi neste Mundial. Inesperadamente. Felizmente.

Opções

O que pode parecer uma boa opção, no início do jogo, arrisca a tornar-se uma péssima opção, consoante esse jogo decorra. Essa é, talvez, a grande condenação do futebol àqueles que jogam para não perder. Montar um esquema defensivo é, sempre, arriscar tudo numa jogada só. Montar um esquema defensivo sem um plano b que  possa transformar a equipa numa estrutura ofensiva capaz de alterar um resultado, é suicídio. Ontem, Carlos Queirós escolheu ajoelhar-se perante o inevitável. O inevitável na sua visão do futebol. Voltou a colocar jogadores fora das suas posições, manteve (durante 90 minutos) o meio-campo em inferioridade numérica perante o adversário, recorreu à táctica condenada ao falhanço de esperar que Ronaldo resolvesse o jogo. Escolher bem é sempre o mais difícil, numa competição. Escolher bem a meio do jogo, é essencial para se ser um grande treinador. Carlos Queirós demonstra, há 17 anos, que isso é coisa que ele não sabe fazer.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Venha ele

Chove na Cidade do Cabo. Em Portugal, brilha o sol, uma leve brisa toma as ruas, fazendo ondular bandeiras e cachecóis pendurados nas varandas. Faltam três horas para o primeiro duelo ibérico de sempre num Campeonato do Mundo. Quer Portugal, quer Espanha, já foram equipas onde brilharam intensas gerações. Mas nenhuma delas cresceu como as actuais equipas de cada país. Portugal com uma equipa plena de jogadores que, desde muito novos, sabem que vão ser craques de grandes equipas mundiais (por Inglaterra, Espanha, Itália...), Espanha com uma equipa que cresceu a ver o seu campeonato tornar-se no mais mediático do mundo, certos de que o seu futuro seria feito de derbies entre Barcelona e Real Madrid à escala mundial.
Chove na Cidade do Cabo. Os jogadores que vão entrar em campo já se defrontaram centenas de vezes, em competições de selecções (desde os quinze ou dezasseis anos), em competições de clubes (sejam nacionais ou internacionais, mais do que uma vez por ano). De cada lado, a responsabilidade de ganhar o jogo. A possibilidade de, com uma vitória, se estender uma passadeira até ao topo das maiores equipas do mundo, um lugar onde a Espanha nunca chegou, um lugar que Portugal já espreitou por duas vezes, sem o conseguir agarrar. De cada lado, a responsabilidade de ser considerado o melhor.
Chove na Cidade do Cabo. Em Portugal, brilha o sol. As pessoas andam na rua como se esquecessem, saem apressadas dos empregos, ultimam as compras, telefonam a amigos para confirmar que todos se vão juntar a ver o jogo. Em Espanha, imagino, acontece exactamente o mesmo. Em certos dias, devíamos ter a capacidade de acelerar o relógio para que o grande momento em que duas equipas entram em campo chegasse mais depressa. No fundo, acordámos todos a pensar nisso: no Portugal - Espanha de logo à noite. Tudo o que aconteceu valeu pouco em comparação com o que se irá passar durante o jogo. Morreram pessoas, namorados zangaram-se, ocorreram acidentes, boas e más notícias, tudo confundido na memória futura de cada um com os noventa (ou mais) minutos de um jogo de futebol.
Venha ele.

Vai para casa

Se houve uma equipa que jogou sem precauções, foi o Chile. Encantou-me com a sua entrega em campo, com o seu futebol a andar para  a frente. Mas não se pode jogar assim contra um Brasil, cínico, mas ainda um Brasil. Três a zero é um resultado pesado, mas quem viu o jogo só se espanta por não ter sido ainda maior a diferença. Acabou-se a festa para Bielsa, mas este Chile fica como uma das equipas que faz a resistência ao jogar para o resultado. Por muito bom que isso seja, vai para casa cedo.

Devagar para ir longe

Um Mundial de futebol vence-se com precauções. Não é uma coisa bonita de se pensar, não é com gosto que digo isso. Mas é uma realidade. Aliás, quase todas as competições futebolísticas se vencem com precauções. Sei disso desde 1993/94, quando o Tirsense ganhou a Liga de Honra com uma táctica de nove defesas. Quando se assiste a um jogo da Holanda, não se espera que até eles pensem que o melhor é chegar à próxima fase com vagar. Mas sim, a Holanda também já entendeu. Um jogo ganha-se marcando golos e fazendo tudo para evitar sofrer. Não é com gosto que digo isto. Mas parece-me que é mesmo esta a verdade.

Uma questão de horários

Cada Mundial obriga-nos a criar todo um programa de conjugação entre a nossa vida e os horários dos jogos de futebol. Ora se vivem Mundiais que se prolongam pela noite dentro (como nos EUA), que nos obrigam a levantar a horas impróprias da cama (como o da Coreia/Japão) ou então aqueles Mundiais que nos fazem ter que fintar uma série de obrigações profissionais para não perder os jogos (é o caso do Mundial que agora decorre, como foi o caso do Mundial da Alemanha). Das várias hipóteses, a que guardo, até agora, como mais difícil foi a dos EUA. Jogos que começam à meia-noite, duas ou três da manhã, fazem com que o sono (e algumas vezes o peso de uma saída à noite) lute furiosamente contra a nossa capacidade de dispensar atenção a um jogo de futebol. Já lembrei aqui longas lutas contra o sofá para resistir à final do Mundial de 94, mas dos jogos mais complicados de acompanhar, para mim, foi um Argentina-Portugal, nos Jogos Olímpicos de 96, quando, com alguns amigos e uma garrafa de gold strike, a cada minuto que passava mais complicado era discernir entre o que era jogador português, jogador argentino e relvado. Incrível, como ficou memória disso.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ficar alerta

Em Janeiro de 2011, a Coreia do Norte voltará a participar numa competição internacional de futebol, a Taça das Nações Asiáticas. Quantos jogadores e treinadores dos presentes neste Mundial estarão nessa competição? Segundo as notícias, o melhor mesmo é ficar alerta.

Obrigado Alemanha

Senhores e senhoras, a Alemanha. Depois de no início do campeonato, o bonito futebol germânico ter cilindrado uma equipa menor, chegou agora a vez de dizimar um presumível candidato ao título. Os alemães foram sempre mais em campo, estiveram mais vezes nos lugares certos, dispuseram de uma alegria que enfureceu os ingleses momento a momento. Esta Alemanha é a selecção que se apresenta mais equilibrada nesta fase do campeonato. E daqui a uns dias, defrontará a Argentina, outra equipa que tem na alegria uma das suas características principais. Futebol e golos, são aquilo que se espera. Mas, por agora, obrigado, Alemanha, por nos fazeres felizes a ver futebol.

Maradona

Na equipa argentina, com tantos craques juntos, a táctica não será um factor mais importante do que a união do grupo. E é por isso que Maradona é o improvável treinador de sucesso nesta selecção. Não só na energia que coloca em jogo, com a sua acção irrequieta na linha lateral durante os noventa minutos, mas também em pequenos gestos, como o beijo a todos os jogadores, no túnel de acesso aos relvados, momentos antes da entrada em campo.

O árbitro

Parece que os árbitros decidiram começar a dar nas vistas. Hoje, um golo claro que ficou por sancionar, no Alemanha-Inglaterra, e um golo em fora-de-jogo a contar para o marcador. Em ambos os casos, pior do que ser ou não golo, é o efeito que a decisão do árbitro tem na equipa. Os ingleses ficaram privados da força mental que o empate ao intervalo lhes traria, os mexicanos perderam-se, até porque, pelo que deram a entender as imagens, a repetição da jogada foi exibida no estádio.
Quanto mais depressa se optar pela utilização das imagens televisivas nas decisões de jogo (sobretudo nas jogadas de golo), melhor será para o futebol. Até porque, em ambos os casos, se a decisão errada entra nos anais da história, a decisão certa teria permitido mais espectáculo durante o jogo. E acho que seria nisso que os senhores da FIFA deveriam pensar.