domingo, 5 de setembro de 2010

Noruega - Portugal: a primeira vez

Estádio Ulleval em Oslo
Em Junho de 1967, Portugal era uma das mais importantes selecções do mundo, dado o pódio conquistado no Mundial do ano anterior. No grupo de qualificação para o Europeu de 68, a equipa portuguesa disputaria o primeiro jogo oficial contra a Noruega. Mais precisamente, no dia 8 desse mês.
No onze titular, Eusébio liderava o conjunto, apoiado em experientes jogadores como José Augusto, Jaime Graça, Hilário e Morais, mas também em estreantes como Estêvão Mansidão, do Braga. Perante 31000 pessoas, Eusébio não deixou os seus créditos em mãos alheias, marcando o primeiro golo aos 15 minutos e o segundo aos 61, depois da Noruega ter conseguido o empate. A equipa norueguesa era um dos parentes pobres do futebol europeu, mas foi a única equipa que Portugal conseguiu vencer por duas vezes nessa fase de qualificação, acabando sem qualquer outra vitória nos confrontos contra Bulgária e Suécia.
Na próxima terça-feira, Noruega e Portugal voltam a entrar no Estádio Ulleval, em Oslo, para disputar a qualificação para o Euro 2012. O futebol norueguês evoluiu muito durante a década de 90, mas o que iremos assistir é um confronto de duas equipas à procura de uma nova identidade: a Noruega saudosa dos sucessos da década passada, Portugal em luta contra o síndrome da orfandade.

sábado, 4 de setembro de 2010

Futebol nos Estados Unidos


Beau Dure é um jornalista desportivo, do USAToday,  que acompanha a Major League Soccer desde 1999. Long-range goals: the success of Major League Soccer é o seu primeiro livro, sendo também o primeiro livro sobre a liga americana de futebol.
Um dos preconceitos ainda presentes na cabeça de grande parte dos seguidores deste desporto é o previsível insucesso do mesmo em terras do Tio Sam. No entanto, sendo a selecção americana uma presença habitual em Mundiais desde 1990, com uma liga profissional que completa, este ano, catorze épocas, talvez seja melhor repensar a frase.
No livro de Beau Dure acompanhamos toda a história da MLS, começando com o acordo estabelecido entre a Federação dos Estados Unidos e a FIFA, no sentido de ser criado um campeonato profissional de futebol, assegurando assim a organização do Mundial de 94. O caminho desta liga não foi fácil. As dificuldades encontradas para atrair investidores, as guerras com outros campeonatos organizados no território, os problemas com as situações contratuais dos jogadores e as formas encontradas para conciliar os diferentes públicos do soccer são analisados a fundo neste livro. Para além disso, contamos com bons relatos do que se passou em todas as épocas da liga, para além dos resultados dos play-offs.
Beau Dure também entrevistou vários dos administradores da liga ao longo dos anos, bem como jogadores que ficaram no imaginário dos amantes do futebol, como Alexi Lalas. As palavras dos diferentes intervenientes ajudam o livro a tornar-se um objecto de interesse para quem procura as histórias associadas ao fenómeno futebol.
Long-range goals, não sendo um livro memorável, é um excelente contributo para quem tem curiosidade sobre o que se passa no futebol do lado de lá do Atlântico Norte. Também nos ajuda a compreender uma visão do desporto que é, em vários pontos, muito afastada da visão europeia. No fundo, ambos os lados terão algo a aprender com o outro. Se a boa saúde financeira da liga encontrar meios de se manter (dado como garantido o crescimento das plataformas de criação de novos jogadores em todo o território), o futuro da MLS tratará mais da forma da sua evolução do que das dúvidas acerca da sua subsistência.

(este livro na Amazon)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Portugal - Chipre: a primeira vez

Portugal em 1972
O primeiro encontro entre as selecções de Portugal e do Chipre realizou-se no dia 29 de Março de 1972. Com Portugal a viver sob uma ditadura que se ia desfazendo com o desgaste da Guerra Colonial, os cipriotas não viviam melhor sorte, já que tendo conseguido a independência em 1960, o seu território era disputado por Gregos e Turcos, num clima de confronto e tensão que atingiria o seu ponto alto em 1974 com a divisão da ilha em duas repúblicas.
Em 1972, a selecção portuguesa vivia entre gerações. No primeiro jogo de José Augusto no comando técnico, dois outros Magriços evoluíam ainda no onze inicial (Jaime Graça e Eusébio), partilhando o terreno de jogo com Humberto Coelho, Nené e Jordão, símbolos da equipa das quinas durante a década de setenta. O futebol cipriota era um dos parentes pobres das competições europeias, não se estranhando, assim, a confortável vitória por 4-0. O jogo contou para a fase de apuramento para o Mundial de 74, sendo que ambas as equipas acabariam por ficar de fora, o Chipre em último lugar do grupo, Portugal ultrapassado pela Bulgária.
Depois desse encontro, Portugal e Chipre voltaram a encontrar-se por mais sete vezes, sempre com resultados favoráveis para os Lusitanos. Mesmo que, no início do séc. XXI, os cipriotas apareçam como uma potência emergente na Europa (com equipas a disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões e da Liga Europa), o seu futebol combativo não deverá chegar para importunar uma equipa portuguesa que joga em casa. Veremos, mais logo, como rolará a bola.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A montanha pariu um rato

Para os adeptos dos principais clubes portugueses, a noite de 31 de Agosto para 1 de Setembro, foi uma pequena desilusão. Depois de dois meses a ouvir falar de potenciais reforços, estes acabaram por não chegar.
No caso do FC Porto, a novela Kléber acabou sem resolução (o jogador está a treinar no At. Mineiro e inscrito  pelo Marítimo), sendo que as notícias que davam conta de um potencial reforço para a linha atacante do clube ficou sem efeito. Para além de Falcao e Walter, os portistas vão ter que contar com possíveis adaptações dos seus extremos, sobretudo Hulk e Ukra, no caso de impedimento dos ponta-de-lança.
No SL Benfica, o reforço do meio-campo acabou também por não chegar, depois de inúmeros médios brasileiros (ao que se diz, descobertos por Jesus nas noites que passa a ver o Brasileirão) terem ficado sem bilhete para a Luz. Perante os jogadores contratados, fica a dúvida se a equipa foi reforçada no sentido de suprir as lacunas deixadas pelas saídas de Ramires e Di María ou se, pelo contrário, terá sido reforçada com o intuito de alargar as possibilidades tácticas do plantel. Jorge Jesus terá agora que trabalhar com o que tem (e não é pouco, Ruben Amorim, Carlos Martins, Sálvio, Gaitán... que luxo!).
O Sporting e, sobretudo, Paulo Sérgio, volta a ficar com o título de piada do último dia de reforços. Quando todos os esforços foram envidados para complementar uma linha atacante que era frágil, e mais frágil terá ficado com o empréstimo de Sinama-Pongolle, tendo mesmo o treinador reivindicado a contratação de um "pinheiro", anuncia-se a chegada de Tales, um médio brasileiro com 1m68 de altura(!!!). O ridículo da situação é acentuado com o facto do Sporting ter emprestado três jogadores com as características pretendidas por Paulo Sérgio: Owusu (1m83, no Cercle Bruges), Purovic (1m93, no Belenenses) e Baldé (1m93, no Santa Clara). Por muito discutível que seja a valia destes três jogadores, qualquer poderia reclamar um lugar num ataque leonino que se apresentará assim para a disputa de Liga, Liga Europa, Taça da Liga e primeiras eliminatórias da Taça de Portugal apenas com quatro avançados no plantel.
Em resumo, a montanha pariu um rato. E se o discurso oficial se tem ocupado a culpar a crise por estas lacunas nas principais equipas portuguesas, talvez a razão esteja num mau planeamento dos gastos. Os resultados são, como sempre, a única coisa que poderá salvar (mas também condenar) os responsáveis por estas opções.

Nota: Já depois da escrita deste texto o Sporting anunciou a contratação de Hildebrand, o que não vem mudar, em nada, as conclusões apresentadas. Apesar de ser um dos pedidos do treinador, guarda-redes era uma posição que o Sporting tinha coberta.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O pirata de Paris

(fonte da foto)
Laurent Fignon faz parte das minhas primeiras memórias do Tour de France. Se a memória não me atraiçoa, acompanhava as etapas na televisão, no Verão de 1989, talvez em directo, talvez em resumos alargados. Para além disso, A Bola e o Record contavam, ao pormenor, a disputa entre o francês com ar de pirata e um americano com ar de certinho (Greg Lemond).
Laurent Fignon já ganhara o Tour por duas vezes, em 82 e 83. Eram, assim, naturais, as esperanças dos franceses, numa época em que franceses a lutar pela vitória nesta competição eram ainda habituais. Fignon acabou por ficar para a história como o penúltimo francês a vencê-la (depois dele, só Hinault), tal como foi o penúltimo francês a conseguir um segundo lugar (imitado por Virenque, alguns anos depois).
O ciclismo internacional começou, para mim, ligado a Fignon. Por isso senti algum orgulho quando, em 92, já perto do final da carreira, o vi ainda vencer uma etapa do Tour, com a camisola da Gatorade. Ontem fui surpreendido pela notícia da sua morte. Aos 50 anos, Laurent Fignon não resistiu a mais uma etapa, sucumbindo ao avanço do cancro. Não mais voltaremos a ver o pirata loiro nas estradas, a não ser que procuremos bem no fundo do nosso baú de memórias, a não ser insistindo um pouco em rever as imagens que ficaram desses momentos históricos. Seguramente que, por aí, Fignon continuará a vencer etapas até à eternidade.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Vem aí a Taça

No próximo fim-de-semana começa a grande competição nacional do futebol português, começando por, nesta primeira eliminatória, juntar as equipas da 2ª e 3ª divisões nacionais.
Os olhares de todos vão estar no Municipal de Chaves, onde o Desportivo local, finalista da Taça do ano passado, recebe o Amares. Apesar do adversário não apresentar um grande historial, o facto da equipa de Chaves ter tido vários problemas para a formação do plantel e formalização da respectiva inscrição, para além do facto de as surpresas da Taça raramente se repetirem em anos seguidos, poderá fazer com que o Desportivo acabe por sair cedo da competição.
O reencontro com a história dar-se-à em Sacavém, no velhinho campo do Sacavenense. A equipa dos arredores de Lisboa receberá uma outra equipa há muito afastada das competições nacionais, o Sport Clube Alba, de Albergaria-a-Velha. Para os fantasiosos seguidores da 3ª Divisão, este será um encontro a não perder.
Por último, destaque para Complexo Desportivo da Tocha onde o União local receberá o meu muito querido SCU Torreense. Na equipa da casa, o treinador José Viterbo tentará lançar mais algumas jovens promessas no futebol nacional, sendo que este ano as atenções estarão concentradas em jovens como o guarda-redes Pedro Carvalho (ex-União de Leiria), o avançado Mateus (ex-Naval) e nos defesas César (ex-Naval) e Nicolas (formado no clube). Do lado do SCU Torreense, uma semana agitada que inclui a dispensa do capitão de equipa, Paulinho. Mas os olhares estarão todos em Fábio Paim, uma promessa várias vezes adiada no nosso futebol, agora a tentar a sua sorte no histórico de Torres Vedras, depois de ver terminada a sua ligação ao Sporting Clube de Portugal.
Domingo, será dia de Taça. Milhares de corações baterão mais forte em todo o país. Em todos eles, a esperança de ver a sua equipa entrar no relvado do Jamor, no último jogo da época.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O norte-coreano Mr. Po


Hwang Po nasceu em Wonsan, na República Popular da Coreia do Norte, em 1945. Aos dezasseis anos viajou para Pyongyang onde foi viver em casa dos tios e preparar-se para entrar na Universidade. Desde jovem que lhe reconheciam o talento para duas coisas: jogar futebol e escrever. Po soube, também, que o seu futuro estaria irremediavelmente ligado a esses dois fenómenos. Em Wonsan jogava apenas com os seus amigos, mas quando chegou à capital, prestou provas no Pyongyang City Sports Group, uma equipa acabada de fundar havia poucos anos. Po jogava nas segundas categorias, enquanto se dedicava arduamente aos estudos. Entrou na Universidade para o curso de Comunicação Social, começou a trabalhar num diário da capital como estagiário e treinava sempre que o tempo lhe permitia. Comparado com os jogadores da capital, era agora apenas um jogador sofrível, mas Po preferia pensar que isso se devia à sua trabalhosa vida de estudante dedicado. Tão dedicado, até, que concorreu e venceu um difícil concurso cujo prémio era desejado por todos os estudantes da Universidade. Uma viagem a Inglaterra para acompanhar os sucessos da equipa nacional no Mundial de 1966.

A chegada a Middlesborough, onde a equipa norte-coreana disputou todos os jogos da primeira fase, logo fez com que Po percebesse que a realidade da Europa era muito mais apropriada aos seus desejos de jovem jornalista. E assim, quando não estava em Ayresome Park a assistir aos jogos e a enviar longas descrições épicas sobre os mesmos, Po tratava de encontrar uma forma de permanecer em Inglaterra depois do Campeonato. A sua sorte ficou marcada no golo de Pak contra a Itália, o que prolongava a estadia da equipa e obrigava a comitiva de norte-coreanos a viajar pela Inglaterra. Po conseguiu fazer a viagem fora do autocarro que transportava todos os jornalistas que acompanhavam a equipa e seguiu de boleia num carro com alguns jornalistas ingleses e escoceses. O plano era simples, a meio do caminho abandonar o jornalismo e o Campeonato do Mundo e ficar por uma das cidades de Inglaterra. Quis a sorte que a fuga o deixasse em Halifax.

Mesmo não conhecendo ninguém na cidade, Po era um homem com um plano. Primeiro que tudo, teria que conseguir entregar-se na Polícia e ser reconhecido como refugiado político. O facto de falar um inglês perfeito, de a sua família ter ficado dividida na separação das duas Coreias e de ser, praticamente, um jornalista, ajudou, e muito, na obtenção do estatuto de refugiado. Depois, conseguiu completar os seus estudos em Halifax e não resistiu a colocar-se à prova no Halifax Town, a equipa mais frágil da cidade, que naqueles anos conhecia a glória na terceira e quarta divisões inglesas. Po jogou durante seis anos neste clube, conseguindo um total de dezoito jogos oficiais. Era um jogador fraco, pequeno, mas muito trabalhador. Beneficiava, também, do facto de ser um refugiado, um homem que recebia apoio social do clube e que, por isso, era muito acarinhado.

Mas aquilo que tornou Po, ou Mr. Poe como ficara conhecido em Halifax, famoso, eram as suas belíssimas crónicas no suplemento semanal do clube. Raramente jogando, Mr. Poe fazia os resumos dos jogos, leitura preferida por muitos dos adeptos, não pela fidelidade aos acontecimentos, mas pela razão contrária. Mr. Poe era um esteta, um homem preocupado com o espectáculo e a fantasia de todos os seus leitores. E sendo o Halifax Town uma equipa mais conhecida pelos jogos que perdia do que pelos que ganhava, era a literatura de Mr. Poe que tornava a leitura dos resumos dos jogos do clube tão apetecíveis.  Não tendo tido grande sucesso como jogador de futebol, o norte-coreano Hwang Po, que com a obtenção da nacionalidade inglesa ficou conhecido por Mr. Poe, era um fantasista da bola. Um verdadeiro artista da invenção literária, com uma bola ao pé.  Abandonando a prática do futebol, Mr. Poe ainda hoje encanta aqueles que, em Halifax, correm as ruas em busca das suas histórias sobre os clubes de futebol locais.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Foi

Foi um grande Mundial de futebol. Com grandes equipas a dominar a competição, com grandes jogadores em afirmação, com jogos disputados e momentos trágicos. Foi um grande Mundial de futebol. Tivemos a sorte de ver Casillas, Puyol, Fábio Coentrão, Khedira, Schweinsteiger, Arevalo Rios, Thomas Muller, Xavi, Iniesta, Sneidjer, Robben, Klose, Villa, Forlán, Suarez. Muitos destes nomes e destes momentos serão recordados, daqui para a frente, milhares de vezes. Podemos dizer que os vimos em directo. Podemos dizer que os vivemos. Foi, sem dúvida, um grande Mundial de futebol.

Desculpas

Oiço os comentadores criticar a dureza de van Bommel e de Jong contra os médios-ofensivos espanhóis. Mas nem uma palavra sobre a impetuosidade de Puyol, Busquets e Capdevilla. Uma equipa que aposta no controlo de bola, na beleza da finta, tem sempre desculpa para que os seus jogadores menos habilidosos possam castigar os adversários. Quem aposta num jogo de linhas rectas, não.

Oportunidade

A Holanda poderia ter ganho este jogo se, numa das oportunidades flagrantes (duas para Robben, duas para Mathijsen), tivesse marcado golo. Poderia até ter goleado. Mas os deuses do futebol estiveram com a Espanha. Dizemos, agora, que temos um campeão justo. Mas o futebol nunca foi um campo de justiça. É apenas o terreno onde ganha que aproveita as oportunidades. Nada mais.

Espaço

Uma equipa que procura, durante 120 minutos, um espaço, acaba por encontrá-lo. Iniesta marcou o golo. A Espanha é a justa campeã.