Textos sobre desporto para quem pensa que a bola não entra na baliza ou no cesto por acaso.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
A experiência Ebbsfleet
Ebbsfleet United é um clube dos arredores de Londres que entrou na história do futebol por ter sido alvo de compra pelo projecto Myfootballclub, que adquiriu 75% da sociedade quando esta estava perto de declarar falência. Em Agosto de 2007, 50.000 pessoas contribuíram com 35 libras cada uma para esta compra, tendo ganho o direito a participar em todas as decisões da vida do clube, desde investimentos no estádio, transferências, até a poder sugerir um onze titular para cada um dos jogos. Muitos desses investidores acreditaram ter nesta experiência a possibilidade de tentar, na vida real, aquilo que é experimentado nos jogos de computador de gestão de clubes. Mas a realidade veio a revelar-se bem distinta.
Liam Daish, antigo internacional irlandês e treinador do Ebbsfleet United, lembra que não é fácil a vida de um treinador no futebol amador. Para além de todos os problemas que surgem diariamente num grupo de atletas com outros empregos, tomar decisões sem estar nos treinos e sem conhecer pessoalmente os jogadores, poderá não dar os resultados desejados. Para mais, os investidores do Myfootballclub estariam à espera de conseguir estar à frente de um clube de maior nomeada do que o Ebbsfleet, o que terá levado à desmotivação dos mesmos.
No início da época de 2010/11, a descida de divisão e a saída da maior parte dos jogadores do plantel coloca o Ebbsfleet em situação complicada. Dos investidores iniciais, sobram agora 800 pessoas, muitas delas alheadas das decisões que vão sendo tomadas no site do Myfootballclub. A experiência da gestão partilhada de um clube de futebol é discutida em Inglaterra como sendo uma aposta falhada. A realidade não é tão doce como os jogos de computador. Felizmente, temos os jogos de computador.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Artur Pinheiro, o ginasta guarda-redes
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| Pinheiro no Barreirense |
Na "moderna vila industrial e operária" do Barreiro, no início dos anos 40, Artur Pinheiro era um dos muitos jovens que praticava o futebol do pé-descalço, guardados que eram os sapatos para os bailes de domingo. Filho de um negociante de sucata, Artur cedo demonstrou apetência para a baliza, e começou a praticar futebol oficialmente nas equipas jovens do Barreirense. Corria, então, a época de 51-52 quando Francisco Silva, guardião titular da equipa do Barreirense, se lesionou. Perante a urgência de encontrar um substituto, a direcção pediu uma autorização especial para utilizar o jovem Pinheiro, na altura, com 17 anos. A viagem para o Porto, segundo Artur Pinheiro, foi um espectáculo. "Quando estava no balneário, um dos directores chegou ao pé de mim e perguntou-me se eu estava preparado para tamanha responsabilidade. Eu sorri para ele e respondi-lhe que uma grande responsabilidade tinha um condutor de transportes de crianças. Jogar futebol era um divertimento". Não terá sido sem algum pavor que o dirigente do Barreirense ouviu tão insolentes palavras. Mas a verdade é que Pinheiro conquistou o público que assistia ao jogo nessa tarde, acabando o Barreirense por sair vencedor da contenda. Durante essa época, ainda com idade júnior, haveria de disputar 14 jogos na Primeira Divisão.
Mas como, na altura, o futebol não era ocupação que garantisse a subsistência de ninguém, o pai de Artur Pinheiro chamou-o para uma conversa. Estava na hora de fazer uma escolha: ou voltar à escola ou aprender um ofício. Consultou-se o Presidente da Câmara do Barreiro, amigo da família, e o jovem Artur começou a partilhar os dias entre treinos e aulas na Escola de Soldadores, em Belém. Diz o próprio, "na altura, eu era um Rodolfo Valentino. Usava brilhantina, vestia bem. Para além disso, toda a gente queria cumprimentar o Pinheiro. Aparecia nos jornais e as pessoas queriam falar comigo". Pinheiro completou seis épocas na primeira categoria do Barreirense, partilhando a baliza com o já referido Francisco Silva e Isidoro. Em 57-58, deu-se a sua transferência para o SCU Torreense. "O dinheiro da transferência havia sido conseguido entre alguns empresários de Torres Vedras, entre os quais o administrador da Casa Hipólito. Quando cheguei à cidade, encontrei-me com ele e disse-lhe que gostaria de trabalhar na empresa. Como já tinha aprendido o ofício, tornei-me funcionário da Casa Hipólito, onde fiquei muitos anos". Com a camisola do Torreense fez duas épocas na Primeira Divisão. Reconhecido como um grande atleta, "chegava a ir a correr de Torres Vedras a Santa Cruz, dando meio volta e voltando para casa. Toda a gente dizia que o Pinheiro era maluco, mas como eu não era muito alto, tinha que ter ginástica para sobressair na baliza". É provável que o jogo de maior destaque que Pinheiro disputou na Primeira Divisão tenha sido o último. Na última jornada do Campeonato de 58-59, Pinheiro foi considerado um dos melhores em campo, num jogos frente ao FC Porto. O Torreense acabou por sair derrotado por 0-3, sendo que o Porto festejou o título nacional com uma vantagem de apenas um golo sobre o Benfica.
Artur Pinheiro nunca representou a Selecção Nacional, tendo, no entanto, participado nos treinos da Selecção Militar. Disputou, na altura, a titularidade com Dinis Vital (Lusitano de Évora), mas um dedo fracturado na véspera de uma viagem a Itália, deixou-o sem qualquer internacionalização. "Estava destinado a não ir a Itália." No final da sua carreira, deixou o Torreense para representar o Caldas e o Peniche, na altura na 3ª Divisão. Pinheiro tinha 38 anos, mas na reunião com o Presidente do GD Peniche, foi deixado à vontade para pedir o quanto queria para assinar contracto. Sendo que ele mantinha o emprego na Casa Hipólito, pediu para receber o mesmo ordenado que os outros guarda-redes da equipa, mais 60 contos de luvas. "O Presidente esfregou as mãos e passou-me logo o cheque. Quando saí da reunião, sentei-me num banco de jardim, lá em Peniche, e quase chorei. Se tivesse pedido 200 contos, eles tinham-mo dado". Foi a sua última época como jogador. Depois disso, dedicou-se à sua actividade profissional de soldador, tenho trabalhado em Portugal e na Alemanha. Hoje em dia, Artur Pinheiro é um homem orgulhoso da sua carreira. É impossível não notar como brilham os seus olhos, sempre que lhe relembram algum dos seus feitos na baliza.
(As citações foram recolhidas durante uma conversa com Artur Pinheiro. Um especial agradecimento ao Rui Malheiro pela disponibilização de dados sobre a carreira do atleta na Primeira Divisão)
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Houve Taça!
Um ano depois de um encontro da segunda eliminatória da Taça de Portugal 09/10, Desportivo de Chaves e Amares voltaram a encontrar-se no Municipal de Chaves. Desta vez, o Desportivo com a honra de finalista vencido da competição do ano anterior, mas com uma equipa despedaçada, depois de um verão de terror, pela descida de divisão, os problemas directivos e a falta de dinheiro.
O Desportivo entrou em campo com apenas quatro atletas que pisaram o relvado do Jamor, há meses atrás. Curiosamente, jogadores que causaram muito boa impressão nessa final, como Edu ou Bruno Magalhães. A crónica do encontro refere uma série de oportunidades falhadas pela equipa da casa, uma expulsão no início do prolongamento e dois golos do Amares. Com a equipa a perder 0-2, a esperança renasceu com dois golos tardios, a restabelecer o empate e a levar o jogo para as grandes penalidades.
No entanto, a lotaria não calhou ao Desportivo. O Amares levou a melhor e, um ano depois, vingou o afastamento prematuro da Taça, assumindo-se como um dos primeiros tomba-gigantes da edição deste ano.
*
Outro dos vencedores desta primeira eliminatória da Taça de Portugal é o Sampedrense, equipa de São Pedro do Sul que, no ano passado, venceu o Campeonato Distrital de Viseu e se prepara agora para disputar a 3ª Divisão Nacional. Em Oliveira do Douro, os rapazes da Beira venceram por 2-1, contando para tal com um golo de Jusko, avançado portador de um nome que homenageia, com alguma justiça, um outro avançado que passou pelo futebol português, o polaco Juskowiak. De seu nome Jorge Leitão, Jusko representou equipas como o Ac. Viseu, Tondela, Social de Lamas, representando pelo terceiro ano consecutivo o Sampedrense, agora nos Nacionais. Ontem, com o seu golo, ajudou a sua equipa a vencer na Taça. As gentes de São Pedro do Sul confiam neste craque para evitar a descida aos distritais.
*
O Tojal, impedido de jogar no seu terreno de jogo devido às medidas do mesmo, recebeu o Mafra no Campo do Bonjardim, em Frielas. Fora do seu ambiente e contra uma equipa que começa a ganhar cartel na Taça (lembrar a boa figura no Estádio Alvalade XXI, o ano passado), o Tojal entrou muito mal numa época que terá que ser jogada sempre fora de casa. A maior goleada desta primeira eliminatória, 0-8, veste assim de amarelo e verde e tem, entre os marcadores, jogadores bem conhecidos das divisões secundárias, como Catchana ou Kifuta, numa equipa que conta ainda com o guarda-redes Márcio Santos ( o agora trintão conta com passagens no Sporting e Real Madrid B, para além de alguns anos nos bancos da 1ª Divisão). Veremos se este resultado fará com que o Mafra apareça em lugares de destaque na 2ª Divisão. Há já alguns anos que José Cristo, o presidente da equipa mafrense, sonha com a chegada da sua equipa às divisões profissionais. O campeonato começa, já, na próxima semana.
O homem revoltado
Abdel Kader sempre se lamentou da sua sorte. Filho de um comerciante
de Alger, desde cedo seu pai lhe tinha marcado o destino: estudar para vir a
ser um doutor, o primeiro doutor da família. Mas Abdel, para surpresa do seu
pequeno círculo familiar, sempre encarou esse desejo como um problema. Era um
rapaz simples que apenas desejava ser jogador de futebol, mas o pai, incapaz de
aceitar esse sonho de infância do seu filho, obrigava-o a estudar.
Abdel Kader também nunca deixou
de cumprir com o que eram as suas
responsabilidades. E assim, mesmo sendo um francês de segunda na sua Argélia
natal, Abdel estudou sempre de uma forma dedicada para ser o melhor da turma,
objectivo que atingiu em diversos anos da sua escolaridade, e conseguir entrar
para a Universidade. Não era segredo que Abdel aproveitava todos os momentos
para sair a jogar futebol com os seus amigos do bairro, mas como actividade de
lazer, como brincadeira, não haveria o pai de o castigar, já que Abdel, não só
nos estudos, também se mantinha como ajudante dedicado no negócio da família.
Com a entrada na Universidade quase garantida, já que Abdel conseguira
uma bolsa para terminar o seu curso dos Liceus, o jovem argelino tinha
engendrado um grande plano para, finalmente, poder conciliar o futebol e os
estudos. Assim, prestou provas na equipa júnior do Racing Universitaire
d’Alger, a equipa de todos os universitários da cidade, conseguindo um lugar no
plantel. O pai, não estando de acordo, não podia deixar de se orgulhar pelo
filho, aos dezasseis anos, já frequentar os meios da Universidade. E assim
estavam felizes os dois. O pai pelo estatuto, o filho pela oportunidade.
A oportunidade e o plano de Abdel eram, no entanto, de maior monta do
que aquilo que poderia parecer à primeira vista. Não só conseguira jogar numa
equipa de futebol, sonho há muito perseguido, como imaginava que mostrando
todas as suas qualidades de guarda-redes treinado nas ruas, Abdel Kader
conseguiria chegar à primeira equipa do Racing Universitaire. E, uma vez atingido
esse nível, os estudos de pouco interessariam, até porque os seniores do Racing
lutavam agora pelo título de campeão nacional.
Abdel Kader treinou-se, afincadamente, durante uma época inteira. Era
um novato e precisava de melhorar todos os seus índices, técnicos e físicos. Desde
os primeiros treinos que o treinador o via como um prometedor guardião, assegurando-lhe
a titularidade da equipa de juniores na época seguinte. No entanto, para Abdel,
quanto mais perto estava o sonho, mais perto também estaria a desilusão. E
assim foi, no mesmo ano em que conseguiu entrar na Faculdade, 1928, Abdel Kader
viu chegar à sua equipa, vindo da modesta equipa do A.S. Montpensier, Albert
Camus.
Albert Camus era um francês branco cujo mito parecia ser bem maior do
que o homem real. Apesar de ser um jovem como Abdel Kader, Camus era conhecido
no meio dos estudantes por ser um brilhante pensador e conversador. Era
presença assídua nos cafés e tertúlias da Universidade, sendo que conjugava
essa faceta intelectual com o facto de ser, também ele, um prometedor
guarda-redes. E ao chegar ao Racing,
Albert Camus vestiu a camisola número 1, enquanto Abdel Kader se habituou a
vê-lo, domingo a domingo, desfazer o seu sonho.
Depois de dois anos a ver jogar Camus nos juniores, Abdel Kader
dedicou-se ao estudo da Filosofia. Camus teria sido o grande guarda-redes do
Racing nas suas vitórias no Campeonato Argelino da década de 1930, não fosse a
doença tê-lo afastado da prática desportiva. Abdel Kader, depois do desgosto de
lhe ver roubada a possibilidade de ser futebolista, viu também Camus roubar-lhe
o protagonismo no campo da filosofia. Certos homens nascem para viver na
sombra. Foi o que sempre pensou Abdel dos sonhos de grandeza que o seu pai lhe
tinha reservado.
domingo, 5 de setembro de 2010
Noruega - Portugal: a primeira vez
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| Estádio Ulleval em Oslo |
No onze titular, Eusébio liderava o conjunto, apoiado em experientes jogadores como José Augusto, Jaime Graça, Hilário e Morais, mas também em estreantes como Estêvão Mansidão, do Braga. Perante 31000 pessoas, Eusébio não deixou os seus créditos em mãos alheias, marcando o primeiro golo aos 15 minutos e o segundo aos 61, depois da Noruega ter conseguido o empate. A equipa norueguesa era um dos parentes pobres do futebol europeu, mas foi a única equipa que Portugal conseguiu vencer por duas vezes nessa fase de qualificação, acabando sem qualquer outra vitória nos confrontos contra Bulgária e Suécia.
Na próxima terça-feira, Noruega e Portugal voltam a entrar no Estádio Ulleval, em Oslo, para disputar a qualificação para o Euro 2012. O futebol norueguês evoluiu muito durante a década de 90, mas o que iremos assistir é um confronto de duas equipas à procura de uma nova identidade: a Noruega saudosa dos sucessos da década passada, Portugal em luta contra o síndrome da orfandade.
sábado, 4 de setembro de 2010
Futebol nos Estados Unidos
Beau Dure é um jornalista desportivo, do USAToday, que acompanha a Major League Soccer desde 1999. Long-range goals: the success of Major League Soccer é o seu primeiro livro, sendo também o primeiro livro sobre a liga americana de futebol.
Um dos preconceitos ainda presentes na cabeça de grande parte dos seguidores deste desporto é o previsível insucesso do mesmo em terras do Tio Sam. No entanto, sendo a selecção americana uma presença habitual em Mundiais desde 1990, com uma liga profissional que completa, este ano, catorze épocas, talvez seja melhor repensar a frase.
No livro de Beau Dure acompanhamos toda a história da MLS, começando com o acordo estabelecido entre a Federação dos Estados Unidos e a FIFA, no sentido de ser criado um campeonato profissional de futebol, assegurando assim a organização do Mundial de 94. O caminho desta liga não foi fácil. As dificuldades encontradas para atrair investidores, as guerras com outros campeonatos organizados no território, os problemas com as situações contratuais dos jogadores e as formas encontradas para conciliar os diferentes públicos do soccer são analisados a fundo neste livro. Para além disso, contamos com bons relatos do que se passou em todas as épocas da liga, para além dos resultados dos play-offs.
Beau Dure também entrevistou vários dos administradores da liga ao longo dos anos, bem como jogadores que ficaram no imaginário dos amantes do futebol, como Alexi Lalas. As palavras dos diferentes intervenientes ajudam o livro a tornar-se um objecto de interesse para quem procura as histórias associadas ao fenómeno futebol.
Long-range goals, não sendo um livro memorável, é um excelente contributo para quem tem curiosidade sobre o que se passa no futebol do lado de lá do Atlântico Norte. Também nos ajuda a compreender uma visão do desporto que é, em vários pontos, muito afastada da visão europeia. No fundo, ambos os lados terão algo a aprender com o outro. Se a boa saúde financeira da liga encontrar meios de se manter (dado como garantido o crescimento das plataformas de criação de novos jogadores em todo o território), o futuro da MLS tratará mais da forma da sua evolução do que das dúvidas acerca da sua subsistência.
(este livro na Amazon)
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Portugal - Chipre: a primeira vez
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| Portugal em 1972 |
Em 1972, a selecção portuguesa vivia entre gerações. No primeiro jogo de José Augusto no comando técnico, dois outros Magriços evoluíam ainda no onze inicial (Jaime Graça e Eusébio), partilhando o terreno de jogo com Humberto Coelho, Nené e Jordão, símbolos da equipa das quinas durante a década de setenta. O futebol cipriota era um dos parentes pobres das competições europeias, não se estranhando, assim, a confortável vitória por 4-0. O jogo contou para a fase de apuramento para o Mundial de 74, sendo que ambas as equipas acabariam por ficar de fora, o Chipre em último lugar do grupo, Portugal ultrapassado pela Bulgária.
Depois desse encontro, Portugal e Chipre voltaram a encontrar-se por mais sete vezes, sempre com resultados favoráveis para os Lusitanos. Mesmo que, no início do séc. XXI, os cipriotas apareçam como uma potência emergente na Europa (com equipas a disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões e da Liga Europa), o seu futebol combativo não deverá chegar para importunar uma equipa portuguesa que joga em casa. Veremos, mais logo, como rolará a bola.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
A montanha pariu um rato
Para os adeptos dos principais clubes portugueses, a noite de 31 de Agosto para 1 de Setembro, foi uma pequena desilusão. Depois de dois meses a ouvir falar de potenciais reforços, estes acabaram por não chegar.
No caso do FC Porto, a novela Kléber acabou sem resolução (o jogador está a treinar no At. Mineiro e inscrito pelo Marítimo), sendo que as notícias que davam conta de um potencial reforço para a linha atacante do clube ficou sem efeito. Para além de Falcao e Walter, os portistas vão ter que contar com possíveis adaptações dos seus extremos, sobretudo Hulk e Ukra, no caso de impedimento dos ponta-de-lança.
No SL Benfica, o reforço do meio-campo acabou também por não chegar, depois de inúmeros médios brasileiros (ao que se diz, descobertos por Jesus nas noites que passa a ver o Brasileirão) terem ficado sem bilhete para a Luz. Perante os jogadores contratados, fica a dúvida se a equipa foi reforçada no sentido de suprir as lacunas deixadas pelas saídas de Ramires e Di María ou se, pelo contrário, terá sido reforçada com o intuito de alargar as possibilidades tácticas do plantel. Jorge Jesus terá agora que trabalhar com o que tem (e não é pouco, Ruben Amorim, Carlos Martins, Sálvio, Gaitán... que luxo!).
O Sporting e, sobretudo, Paulo Sérgio, volta a ficar com o título de piada do último dia de reforços. Quando todos os esforços foram envidados para complementar uma linha atacante que era frágil, e mais frágil terá ficado com o empréstimo de Sinama-Pongolle, tendo mesmo o treinador reivindicado a contratação de um "pinheiro", anuncia-se a chegada de Tales, um médio brasileiro com 1m68 de altura(!!!). O ridículo da situação é acentuado com o facto do Sporting ter emprestado três jogadores com as características pretendidas por Paulo Sérgio: Owusu (1m83, no Cercle Bruges), Purovic (1m93, no Belenenses) e Baldé (1m93, no Santa Clara). Por muito discutível que seja a valia destes três jogadores, qualquer poderia reclamar um lugar num ataque leonino que se apresentará assim para a disputa de Liga, Liga Europa, Taça da Liga e primeiras eliminatórias da Taça de Portugal apenas com quatro avançados no plantel.
Em resumo, a montanha pariu um rato. E se o discurso oficial se tem ocupado a culpar a crise por estas lacunas nas principais equipas portuguesas, talvez a razão esteja num mau planeamento dos gastos. Os resultados são, como sempre, a única coisa que poderá salvar (mas também condenar) os responsáveis por estas opções.
Nota: Já depois da escrita deste texto o Sporting anunciou a contratação de Hildebrand, o que não vem mudar, em nada, as conclusões apresentadas. Apesar de ser um dos pedidos do treinador, guarda-redes era uma posição que o Sporting tinha coberta.
No caso do FC Porto, a novela Kléber acabou sem resolução (o jogador está a treinar no At. Mineiro e inscrito pelo Marítimo), sendo que as notícias que davam conta de um potencial reforço para a linha atacante do clube ficou sem efeito. Para além de Falcao e Walter, os portistas vão ter que contar com possíveis adaptações dos seus extremos, sobretudo Hulk e Ukra, no caso de impedimento dos ponta-de-lança.
No SL Benfica, o reforço do meio-campo acabou também por não chegar, depois de inúmeros médios brasileiros (ao que se diz, descobertos por Jesus nas noites que passa a ver o Brasileirão) terem ficado sem bilhete para a Luz. Perante os jogadores contratados, fica a dúvida se a equipa foi reforçada no sentido de suprir as lacunas deixadas pelas saídas de Ramires e Di María ou se, pelo contrário, terá sido reforçada com o intuito de alargar as possibilidades tácticas do plantel. Jorge Jesus terá agora que trabalhar com o que tem (e não é pouco, Ruben Amorim, Carlos Martins, Sálvio, Gaitán... que luxo!).
O Sporting e, sobretudo, Paulo Sérgio, volta a ficar com o título de piada do último dia de reforços. Quando todos os esforços foram envidados para complementar uma linha atacante que era frágil, e mais frágil terá ficado com o empréstimo de Sinama-Pongolle, tendo mesmo o treinador reivindicado a contratação de um "pinheiro", anuncia-se a chegada de Tales, um médio brasileiro com 1m68 de altura(!!!). O ridículo da situação é acentuado com o facto do Sporting ter emprestado três jogadores com as características pretendidas por Paulo Sérgio: Owusu (1m83, no Cercle Bruges), Purovic (1m93, no Belenenses) e Baldé (1m93, no Santa Clara). Por muito discutível que seja a valia destes três jogadores, qualquer poderia reclamar um lugar num ataque leonino que se apresentará assim para a disputa de Liga, Liga Europa, Taça da Liga e primeiras eliminatórias da Taça de Portugal apenas com quatro avançados no plantel.
Em resumo, a montanha pariu um rato. E se o discurso oficial se tem ocupado a culpar a crise por estas lacunas nas principais equipas portuguesas, talvez a razão esteja num mau planeamento dos gastos. Os resultados são, como sempre, a única coisa que poderá salvar (mas também condenar) os responsáveis por estas opções.
Nota: Já depois da escrita deste texto o Sporting anunciou a contratação de Hildebrand, o que não vem mudar, em nada, as conclusões apresentadas. Apesar de ser um dos pedidos do treinador, guarda-redes era uma posição que o Sporting tinha coberta.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
O pirata de Paris
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| (fonte da foto) |
Laurent Fignon já ganhara o Tour por duas vezes, em 82 e 83. Eram, assim, naturais, as esperanças dos franceses, numa época em que franceses a lutar pela vitória nesta competição eram ainda habituais. Fignon acabou por ficar para a história como o penúltimo francês a vencê-la (depois dele, só Hinault), tal como foi o penúltimo francês a conseguir um segundo lugar (imitado por Virenque, alguns anos depois).
O ciclismo internacional começou, para mim, ligado a Fignon. Por isso senti algum orgulho quando, em 92, já perto do final da carreira, o vi ainda vencer uma etapa do Tour, com a camisola da Gatorade. Ontem fui surpreendido pela notícia da sua morte. Aos 50 anos, Laurent Fignon não resistiu a mais uma etapa, sucumbindo ao avanço do cancro. Não mais voltaremos a ver o pirata loiro nas estradas, a não ser que procuremos bem no fundo do nosso baú de memórias, a não ser insistindo um pouco em rever as imagens que ficaram desses momentos históricos. Seguramente que, por aí, Fignon continuará a vencer etapas até à eternidade.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Vem aí a Taça
No próximo fim-de-semana começa a grande competição nacional do futebol português, começando por, nesta primeira eliminatória, juntar as equipas da 2ª e 3ª divisões nacionais.
Os olhares de todos vão estar no Municipal de Chaves, onde o Desportivo local, finalista da Taça do ano passado, recebe o Amares. Apesar do adversário não apresentar um grande historial, o facto da equipa de Chaves ter tido vários problemas para a formação do plantel e formalização da respectiva inscrição, para além do facto de as surpresas da Taça raramente se repetirem em anos seguidos, poderá fazer com que o Desportivo acabe por sair cedo da competição.
O reencontro com a história dar-se-à em Sacavém, no velhinho campo do Sacavenense. A equipa dos arredores de Lisboa receberá uma outra equipa há muito afastada das competições nacionais, o Sport Clube Alba, de Albergaria-a-Velha. Para os fantasiosos seguidores da 3ª Divisão, este será um encontro a não perder.
Por último, destaque para Complexo Desportivo da Tocha onde o União local receberá o meu muito querido SCU Torreense. Na equipa da casa, o treinador José Viterbo tentará lançar mais algumas jovens promessas no futebol nacional, sendo que este ano as atenções estarão concentradas em jovens como o guarda-redes Pedro Carvalho (ex-União de Leiria), o avançado Mateus (ex-Naval) e nos defesas César (ex-Naval) e Nicolas (formado no clube). Do lado do SCU Torreense, uma semana agitada que inclui a dispensa do capitão de equipa, Paulinho. Mas os olhares estarão todos em Fábio Paim, uma promessa várias vezes adiada no nosso futebol, agora a tentar a sua sorte no histórico de Torres Vedras, depois de ver terminada a sua ligação ao Sporting Clube de Portugal.
Domingo, será dia de Taça. Milhares de corações baterão mais forte em todo o país. Em todos eles, a esperança de ver a sua equipa entrar no relvado do Jamor, no último jogo da época.
Os olhares de todos vão estar no Municipal de Chaves, onde o Desportivo local, finalista da Taça do ano passado, recebe o Amares. Apesar do adversário não apresentar um grande historial, o facto da equipa de Chaves ter tido vários problemas para a formação do plantel e formalização da respectiva inscrição, para além do facto de as surpresas da Taça raramente se repetirem em anos seguidos, poderá fazer com que o Desportivo acabe por sair cedo da competição.
O reencontro com a história dar-se-à em Sacavém, no velhinho campo do Sacavenense. A equipa dos arredores de Lisboa receberá uma outra equipa há muito afastada das competições nacionais, o Sport Clube Alba, de Albergaria-a-Velha. Para os fantasiosos seguidores da 3ª Divisão, este será um encontro a não perder.
Por último, destaque para Complexo Desportivo da Tocha onde o União local receberá o meu muito querido SCU Torreense. Na equipa da casa, o treinador José Viterbo tentará lançar mais algumas jovens promessas no futebol nacional, sendo que este ano as atenções estarão concentradas em jovens como o guarda-redes Pedro Carvalho (ex-União de Leiria), o avançado Mateus (ex-Naval) e nos defesas César (ex-Naval) e Nicolas (formado no clube). Do lado do SCU Torreense, uma semana agitada que inclui a dispensa do capitão de equipa, Paulinho. Mas os olhares estarão todos em Fábio Paim, uma promessa várias vezes adiada no nosso futebol, agora a tentar a sua sorte no histórico de Torres Vedras, depois de ver terminada a sua ligação ao Sporting Clube de Portugal.
Domingo, será dia de Taça. Milhares de corações baterão mais forte em todo o país. Em todos eles, a esperança de ver a sua equipa entrar no relvado do Jamor, no último jogo da época.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
O norte-coreano Mr. Po
Hwang Po nasceu em Wonsan, na República Popular da Coreia do Norte, em
1945. Aos dezasseis anos viajou para Pyongyang onde foi viver em casa dos tios
e preparar-se para entrar na Universidade. Desde jovem que lhe reconheciam o
talento para duas coisas: jogar futebol e escrever. Po soube, também, que o seu
futuro estaria irremediavelmente ligado a esses dois fenómenos. Em Wonsan
jogava apenas com os seus amigos, mas quando chegou à capital, prestou provas
no Pyongyang City Sports Group, uma equipa acabada de fundar havia poucos anos.
Po jogava nas segundas categorias, enquanto se dedicava arduamente aos estudos.
Entrou na Universidade para o curso de Comunicação Social, começou a trabalhar
num diário da capital como estagiário e treinava sempre que o tempo lhe
permitia. Comparado com os jogadores da capital, era agora apenas um jogador
sofrível, mas Po preferia pensar que isso se devia à sua trabalhosa vida de
estudante dedicado. Tão dedicado, até, que concorreu e venceu um difícil
concurso cujo prémio era desejado por todos os estudantes da Universidade. Uma
viagem a Inglaterra para acompanhar os sucessos da equipa nacional no Mundial
de 1966.
A chegada a Middlesborough, onde a equipa norte-coreana disputou todos
os jogos da primeira fase, logo fez com que Po percebesse que a realidade da
Europa era muito mais apropriada aos seus desejos de jovem jornalista. E assim,
quando não estava em Ayresome Park a assistir aos jogos e a enviar longas
descrições épicas sobre os mesmos, Po tratava de encontrar uma forma de
permanecer em Inglaterra depois do Campeonato. A sua sorte ficou marcada no
golo de Pak contra a Itália, o que prolongava a estadia da equipa e obrigava a
comitiva de norte-coreanos a viajar pela Inglaterra. Po conseguiu fazer a
viagem fora do autocarro que transportava todos os jornalistas que acompanhavam
a equipa e seguiu de boleia num carro com alguns jornalistas ingleses e
escoceses. O plano era simples, a meio do caminho abandonar o jornalismo e o
Campeonato do Mundo e ficar por uma das cidades de Inglaterra. Quis a sorte que
a fuga o deixasse em Halifax.
Mesmo não conhecendo ninguém na cidade, Po era um homem com um plano.
Primeiro que tudo, teria que conseguir entregar-se na Polícia e ser reconhecido
como refugiado político. O facto de falar um inglês perfeito, de a sua família
ter ficado dividida na separação das duas Coreias e de ser, praticamente, um
jornalista, ajudou, e muito, na obtenção do estatuto de refugiado. Depois,
conseguiu completar os seus estudos em Halifax e não resistiu a colocar-se à
prova no Halifax Town, a equipa mais frágil da cidade, que naqueles anos
conhecia a glória na terceira e quarta divisões inglesas. Po jogou durante seis
anos neste clube, conseguindo um total de dezoito jogos oficiais. Era um
jogador fraco, pequeno, mas muito trabalhador. Beneficiava, também, do facto de
ser um refugiado, um homem que recebia apoio social do clube e que, por isso,
era muito acarinhado.
Mas aquilo que tornou Po, ou Mr. Poe como ficara conhecido em Halifax,
famoso, eram as suas belíssimas crónicas no suplemento semanal do clube.
Raramente jogando, Mr. Poe fazia os resumos dos jogos, leitura preferida por
muitos dos adeptos, não pela fidelidade aos acontecimentos, mas pela razão
contrária. Mr. Poe era um esteta, um homem preocupado com o espectáculo e a
fantasia de todos os seus leitores. E sendo o Halifax Town uma equipa mais
conhecida pelos jogos que perdia do que pelos que ganhava, era a literatura de
Mr. Poe que tornava a leitura dos resumos dos jogos do clube tão
apetecíveis. Não tendo tido grande
sucesso como jogador de futebol, o norte-coreano Hwang Po, que com a obtenção
da nacionalidade inglesa ficou conhecido por Mr. Poe, era um fantasista da
bola. Um verdadeiro artista da invenção literária, com uma bola ao pé. Abandonando a prática do futebol, Mr. Poe
ainda hoje encanta aqueles que, em Halifax, correm as ruas em busca das suas
histórias sobre os clubes de futebol locais.
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