sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Hóquei em carica

As linhas do campo

Disputa-se esta semana em Wuppertal, Alemanha, mais uma edição do Campeonato da Europa de Hóquei em Patins. De cada vez que assisto a uma competição internacional deste desporto, volta-me à ideia uma fantástica prancha de contraplacado branco que me acompanhou durante anos, entre a infância e a adolescência.
A prancha teria uma medida próxima dos 110cm por 45cm. Desenhado num dos lados da prancha, estavam as linhas do campo de Hóquei em Patins. Durante horas e horas, disputaram-se nessa prancha os mais variados campeonatos de Hóquei, entre Mundiais, Europeus e Nacionais.
Uma ferramenta indispensável, nos tempos anteriores à Internet, era guardar a edição do jornal em que saíam publicados os plantéis de todas as equipas participantes no Nacional. Era o tempo dos grandes dérbies entre Sporting, Porto, Benfica e Óquei de Barcelos, o tempo de equipas históricas como o União Grundig, o Turquel, o Campo de Ourique, tempos em que eu fazia de tudo para que a Física se mantivesse sempre na minha 1ª Divisão. Na altura das grandes competições, era muito importante anotar os nomes de todos os jogadores internacionais, de modo a conseguir manter uma base de dados minimamente actualizada para os jogos de selecções. Daí, enquanto as grandes selecções eram anualmente actualizadas, lembro-me de ter utilizado, durante anos, a mesma selecção colombiana, provavelmente desfasada da realidade. Mas que importava isso?
O importante era o jogo, o fazer raspar a carica no contraplacado para imitar a travagem dos patins, as inúmeras tentativas de remates de longe para simular o golo mais fantástico.
Eram belos tempos, sim. Os tempos dos campeonatos de Hóquei em Patins de carica.

(Receita para um jogo de Hóquei em Patins de carica: uma tábua com as linhas desenhadas, vinte caricas numeradas de 1 a 10, com cores diferentes, duas balizas de bolos de anos viradas ao contrário. Um enorme desejo de ser feliz e a possibilidade de viver com alguém que não nos condene por jogar à carica, mas isto só no caso de termos muito mais de doze anos de idade)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

"Não sei se alguma vez Adu se adaptará à alta-competição" - Entrevista a Beau Dure

Beau Dure em Pequim

Após a leitura do seu livro Long-range goals: the success of Major League Soccer, entrei em contacto com Beau Dure para saber a sua opinião sobre alguns pontos comuns entre a MLS e o futebol português e europeu.

Beau, no teu livro há uma questão recorrente que, na cabeça de um adepto europeu, nunca tem lugar: a hipótese de uma equipa, ou da própria liga, se extinguirem. Como é que, como adepto, lidas com isso?

É realmente complicado para os adeptos, mas a MLS está projectada para prevenir acontecimentos como esse. No fundo, a liga não permite que uma equipa gaste demasiado dinheiro, nem tenha problemas financeiros. Outras ligas e equipas, entre os anos 30 e 80, cometeram esse erro, o que acabou por atrasar o desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos.

Com que imagem ficaste dos portugueses que passaram na MLS, Carlos Queirós como treinador dos Metrostars e Abel Xavier como jogador dos Galaxy?

O Carlos Queirós é muito bem visto nos Estados Unidos e foi uma perda para os Metrostars que ele não tenha ficado mais tempo à frente da equipa. No caso do Abel Xavier, não apresentou condições físicas nem psicológicas para ser um jogador produtivo em Los Angeles.

Existe uma grande comunidade de portugueses nos Estados Unidos, no entanto, são poucos os portugueses que passaram pela MLS. Qual é a razão para que isso aconteça?

Os bons jogadores portugueses ganham mais dinheiro no vosso campeonato, sendo que os melhores jogadores conseguem excelentes contratos nas maiores ligas europeias. A MLS acaba por contratar jogadores de países cujas ligas não têm grande competitividade financeira. Por outro lado, a liga tenta contratar alguns jogadores que já não estão na sua melhor fase, sendo que isso tem vindo a ser limitado a jogadores como o Thierry Henry e o Juan Pablo Angel, que estão em boas condições e fazem com que mais gente vá assistir aos jogos. Quando os Galaxy contrataram o Abel Xavier, era isso que esperavam dele, embora ele não tenha cumprido.

Freddy Adu foi um dos jogadores que causou maior furor na história da MLS. No entanto, desde que veio para a Europa, a sua carreira não evoluiu, com passagens por Portugal, França e Grécia. O que achas que aconteceu com ele e até onde te parece que ele ainda poderá chegar?

O Freddy passou por uma série de situações problemáticas. No Benfica, ele parecia ser apreciado pelo treinador que aconselhou a sua aquisição, mas com a mudança de treinador, nunca mais foi opção. Com o empréstimo ao Mónaco, o presidente (que foi educado nos Estados Unidos) esperava utilizá-lo como embaixador da equipa na América, mas o treinador não gostou de se ver forçado a aceitar um jogador que não tinha escolhido. Neste momento, acho que o Benfica devia tentar encontrar um lugar onde as capacidades do Adu pudessem ser desenvolvidas, apesar dele ter feito alguns bons jogos no final da época passada, com a camisola do Aris. O problema dele é básico: só consegue dar uma boa resposta quando não é pressionado fisicamente. Nas camadas jovens e nos Jogos Olímpicos, ele fez exibições fenomenais. Ele também consegue estar muito bem em jogos amigáveis, onde é menos castigado pelas defesas. Mas num jogo competitivo, ele pode ser anulado muito facilmente. Não sei se alguma vez ele se conseguirá adaptar à alta-competição.

Chad Marshall
Cada vez mais jogadores americanos chegam à Europa para tentar a sua sorte. Em quem apostarias como a grande figura do futuro no futebol dos Estados Unidos?

O Landon Donovan provou o ano passado, no Everton, que pode ter sucesso na Europa, desde que encontre a equipa certa. O Jozy Altidore e o Charlie Davis já jogam na Europa e poderão, em breve, ser avançados muito sólidos para qualquer equipa (assim o Davis recupere das lesões provocadas por um acidente automóvel). O defesa Chad Marshall, do Columbus Crew, é excelente no jogo aéreo e poderá, num futuro próximo, receber uma proposta para jogar numa liga europeia.
Um jogador a ter em conta é o Andy Najar, que tem apenas 17 anos e já se estreou pelo DC United, esta época. A grande questão é se ele escolherá jogar pelos Estados Unidos ou pelas Honduras, onde nasceu.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A experiência Ebbsfleet


Ebbsfleet United é um clube dos arredores de Londres que entrou na história do futebol por ter sido alvo de compra pelo projecto Myfootballclub, que adquiriu 75% da sociedade quando esta estava perto de declarar falência. Em Agosto de 2007, 50.000 pessoas contribuíram com 35 libras cada uma para esta compra, tendo ganho o direito a participar em todas as decisões da vida do clube, desde investimentos no estádio, transferências, até a poder sugerir um onze titular para cada um dos jogos. Muitos desses investidores acreditaram ter nesta experiência a possibilidade de tentar, na vida real, aquilo que é experimentado nos jogos de computador de gestão de clubes. Mas a realidade veio a revelar-se bem distinta.
Liam Daish, antigo internacional irlandês e treinador do Ebbsfleet United, lembra que não é fácil a vida de um treinador no futebol amador. Para além de todos os problemas que surgem diariamente num grupo de atletas com outros empregos, tomar decisões sem estar nos treinos e sem conhecer pessoalmente os jogadores, poderá não dar os resultados desejados. Para mais, os investidores do Myfootballclub estariam à espera de conseguir estar à frente de um clube de maior nomeada do que o Ebbsfleet, o que terá levado à desmotivação dos  mesmos.
No início da época de 2010/11, a descida de divisão e a saída da maior parte dos jogadores do plantel coloca o Ebbsfleet em situação complicada. Dos investidores iniciais, sobram agora 800 pessoas, muitas delas alheadas das decisões que vão sendo tomadas no site do Myfootballclub. A experiência da gestão partilhada de um clube de futebol é discutida em Inglaterra como sendo uma aposta falhada. A realidade não é tão doce como os jogos de computador. Felizmente, temos os jogos de computador.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Artur Pinheiro, o ginasta guarda-redes

Pinheiro no Barreirense
Artur Pinheiro terá sido dos mais jovens guarda-redes a estrear-se na Primeira Divisão, decorria a época de 1951-52, num Salgueiros - Barreirense disputado na cidade do Porto. Mas a sua paixão pelo futebol começou bem mais cedo.
Na "moderna vila industrial e operária" do Barreiro, no início dos anos 40, Artur Pinheiro era um dos muitos jovens que praticava o futebol do pé-descalço, guardados que eram os sapatos para os bailes de domingo. Filho de um negociante de sucata, Artur cedo demonstrou apetência para a baliza, e começou a praticar futebol oficialmente nas equipas jovens do Barreirense. Corria, então, a época de 51-52 quando Francisco Silva, guardião titular da equipa do Barreirense, se lesionou. Perante a urgência de encontrar um substituto, a direcção pediu uma autorização especial para utilizar o jovem Pinheiro, na altura, com 17 anos. A viagem para o Porto, segundo Artur Pinheiro, foi um espectáculo. "Quando estava no balneário, um dos directores chegou ao pé de mim e perguntou-me se eu estava preparado para tamanha responsabilidade. Eu sorri para ele e respondi-lhe que uma grande responsabilidade tinha um condutor de transportes de crianças. Jogar futebol era um divertimento". Não terá sido sem algum pavor que o dirigente do Barreirense ouviu tão insolentes palavras. Mas a verdade é que Pinheiro conquistou o público que assistia ao jogo nessa tarde, acabando o Barreirense por sair vencedor da contenda. Durante essa época, ainda com idade júnior, haveria de disputar 14 jogos na Primeira Divisão.
Mas como, na altura, o futebol não era ocupação que garantisse a subsistência de ninguém, o pai de Artur Pinheiro chamou-o para uma conversa. Estava na hora de fazer uma escolha: ou voltar à escola ou aprender um ofício. Consultou-se o Presidente da Câmara do Barreiro, amigo da família, e o jovem Artur começou a partilhar os dias entre treinos e aulas na Escola de Soldadores, em Belém. Diz o próprio, "na altura, eu era um Rodolfo Valentino. Usava brilhantina, vestia bem. Para além disso, toda a gente queria cumprimentar o Pinheiro. Aparecia nos jornais e as pessoas queriam falar comigo". Pinheiro completou seis épocas na primeira categoria do Barreirense, partilhando a baliza com o já referido Francisco Silva e Isidoro. Em 57-58, deu-se a sua transferência para o SCU Torreense. "O dinheiro da transferência havia sido conseguido entre alguns empresários de Torres Vedras, entre os quais o administrador da Casa Hipólito. Quando cheguei à cidade, encontrei-me com ele e disse-lhe que gostaria de trabalhar na empresa. Como já tinha aprendido o ofício, tornei-me funcionário da Casa Hipólito, onde fiquei muitos anos". Com a camisola do Torreense fez duas épocas na Primeira Divisão. Reconhecido como um grande atleta, "chegava a ir a correr de Torres Vedras a Santa Cruz, dando meio volta e voltando para casa. Toda a gente dizia que o Pinheiro era maluco, mas como eu não era muito alto, tinha que ter ginástica para sobressair na baliza". É provável que o jogo de maior destaque que Pinheiro disputou na Primeira Divisão tenha sido o último. Na última jornada do Campeonato de 58-59, Pinheiro foi considerado um dos melhores em campo, num jogos frente ao FC Porto. O Torreense acabou por sair derrotado por 0-3, sendo que o Porto festejou o título nacional com uma vantagem de apenas um golo sobre o Benfica.
Artur Pinheiro nunca representou a Selecção Nacional, tendo, no entanto, participado nos treinos da Selecção Militar. Disputou, na altura, a titularidade com Dinis Vital (Lusitano de Évora), mas um dedo fracturado na véspera de uma viagem a Itália, deixou-o sem qualquer internacionalização. "Estava destinado a não ir a Itália." No final da sua carreira, deixou o Torreense para representar o Caldas e o Peniche, na altura na 3ª Divisão. Pinheiro tinha 38 anos, mas na reunião com o Presidente do GD Peniche, foi deixado à vontade para pedir o quanto queria para assinar contracto. Sendo que ele mantinha o emprego na Casa Hipólito, pediu para receber o mesmo ordenado que os outros guarda-redes da equipa, mais 60 contos de luvas. "O Presidente esfregou as mãos e passou-me logo o cheque. Quando saí da reunião, sentei-me num banco de jardim, lá em Peniche, e quase chorei. Se tivesse pedido 200 contos, eles tinham-mo dado". Foi a sua última época como jogador. Depois disso, dedicou-se à sua actividade profissional de soldador, tenho trabalhado em Portugal e na Alemanha. Hoje em dia, Artur Pinheiro é um homem orgulhoso da sua carreira. É impossível não notar como brilham os seus olhos, sempre que lhe relembram algum dos seus feitos na baliza.

(As citações foram recolhidas durante uma conversa com Artur Pinheiro. Um especial agradecimento ao Rui Malheiro pela disponibilização de dados sobre a carreira do atleta na Primeira Divisão)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Houve Taça!

Um ano depois de um encontro da segunda eliminatória da Taça de Portugal 09/10, Desportivo de Chaves e Amares voltaram a encontrar-se no Municipal de Chaves. Desta vez, o Desportivo com a honra de finalista vencido da competição do ano anterior, mas com uma equipa despedaçada, depois de um verão de terror, pela descida de divisão, os problemas directivos e a falta de dinheiro. 
O Desportivo entrou em campo com apenas quatro atletas que pisaram o relvado do Jamor, há meses atrás. Curiosamente, jogadores que causaram muito boa impressão nessa final, como Edu ou Bruno Magalhães. A crónica do encontro refere uma série de oportunidades falhadas pela equipa da casa, uma expulsão no início do prolongamento e dois golos do Amares. Com a equipa a perder 0-2, a esperança renasceu com dois golos tardios, a restabelecer o empate e a levar o jogo para as grandes penalidades. 
No entanto, a lotaria não calhou ao Desportivo. O Amares levou a melhor e, um ano depois, vingou o afastamento prematuro da Taça, assumindo-se como um dos primeiros tomba-gigantes da edição deste ano. 

*

Outro dos vencedores desta primeira eliminatória da Taça de Portugal é o Sampedrense, equipa de São Pedro do Sul que, no ano passado, venceu o Campeonato Distrital de Viseu e se prepara agora para disputar a 3ª Divisão Nacional. Em Oliveira do Douro, os rapazes da Beira venceram por 2-1, contando para tal com um golo de Jusko, avançado portador de um nome que homenageia, com alguma justiça, um outro avançado que passou pelo futebol português, o polaco Juskowiak. De seu nome Jorge Leitão, Jusko representou equipas como o Ac. Viseu, Tondela, Social de Lamas, representando pelo terceiro ano consecutivo o Sampedrense, agora nos Nacionais. Ontem, com o seu golo, ajudou a sua equipa a vencer na Taça. As gentes de São Pedro do Sul confiam neste craque para evitar a descida aos distritais.

*

O Tojal, impedido de jogar no seu terreno de jogo devido às medidas do mesmo, recebeu o Mafra no Campo do Bonjardim, em Frielas. Fora do seu ambiente e contra uma equipa que começa a ganhar cartel na Taça (lembrar a boa figura no Estádio Alvalade XXI, o ano passado), o Tojal entrou muito mal numa época que terá que ser jogada sempre fora de casa. A maior goleada desta primeira eliminatória, 0-8, veste assim de amarelo e verde e tem, entre os marcadores, jogadores bem conhecidos das divisões secundárias, como Catchana ou Kifuta, numa equipa que conta ainda com o guarda-redes Márcio Santos ( o agora trintão conta com passagens no Sporting e Real Madrid B, para além de alguns anos nos bancos da 1ª Divisão). Veremos se este resultado fará com que o Mafra apareça em lugares de destaque na 2ª Divisão. Há já alguns anos que  José Cristo, o presidente da equipa mafrense, sonha com a chegada da sua equipa às divisões profissionais. O campeonato começa, já, na próxima semana.

O homem revoltado


Abdel Kader sempre se lamentou da sua sorte. Filho de um comerciante de Alger, desde cedo seu pai lhe tinha marcado o destino: estudar para vir a ser um doutor, o primeiro doutor da família. Mas Abdel, para surpresa do seu pequeno círculo familiar, sempre encarou esse desejo como um problema. Era um rapaz simples que apenas desejava ser jogador de futebol, mas o pai, incapaz de aceitar esse sonho de infância do seu filho, obrigava-o a estudar. 

Abdel Kader  também nunca deixou de cumprir com o que eram  as suas responsabilidades. E assim, mesmo sendo um francês de segunda na sua Argélia natal, Abdel estudou sempre de uma forma dedicada para ser o melhor da turma, objectivo que atingiu em diversos anos da sua escolaridade, e conseguir entrar para a Universidade. Não era segredo que Abdel aproveitava todos os momentos para sair a jogar futebol com os seus amigos do bairro, mas como actividade de lazer, como brincadeira, não haveria o pai de o castigar, já que Abdel, não só nos estudos, também se mantinha como ajudante dedicado no negócio da família.

Com a entrada na Universidade quase garantida, já que Abdel conseguira uma bolsa para terminar o seu curso dos Liceus, o jovem argelino tinha engendrado um grande plano para, finalmente, poder conciliar o futebol e os estudos. Assim, prestou provas na equipa júnior do Racing Universitaire d’Alger, a equipa de todos os universitários da cidade, conseguindo um lugar no plantel. O pai, não estando de acordo, não podia deixar de se orgulhar pelo filho, aos dezasseis anos, já frequentar os meios da Universidade. E assim estavam felizes os dois. O pai pelo estatuto, o filho pela oportunidade.

A oportunidade e o plano de Abdel eram, no entanto, de maior monta do que aquilo que poderia parecer à primeira vista. Não só conseguira jogar numa equipa de futebol, sonho há muito perseguido, como imaginava que mostrando todas as suas qualidades de guarda-redes treinado nas ruas, Abdel Kader conseguiria chegar à primeira equipa do Racing Universitaire. E, uma vez atingido esse nível, os estudos de pouco interessariam, até porque os seniores do Racing lutavam agora pelo título de campeão nacional.

Abdel Kader treinou-se, afincadamente, durante uma época inteira. Era um novato e precisava de melhorar todos os seus índices, técnicos e físicos. Desde os primeiros treinos que o treinador o via como um prometedor guardião, assegurando-lhe a titularidade da equipa de juniores na época seguinte. No entanto, para Abdel, quanto mais perto estava o sonho, mais perto também estaria a desilusão. E assim foi, no mesmo ano em que conseguiu entrar na Faculdade, 1928, Abdel Kader viu chegar à sua equipa, vindo da modesta equipa do A.S. Montpensier, Albert Camus.

Albert Camus era um francês branco cujo mito parecia ser bem maior do que o homem real. Apesar de ser um jovem como Abdel Kader, Camus era conhecido no meio dos estudantes por ser um brilhante pensador e conversador. Era presença assídua nos cafés e tertúlias da Universidade, sendo que conjugava essa faceta intelectual com o facto de ser, também ele, um prometedor guarda-redes.  E ao chegar ao Racing, Albert Camus vestiu a camisola número 1, enquanto Abdel Kader se habituou a vê-lo, domingo a domingo, desfazer o seu sonho.

Depois de dois anos a ver jogar Camus nos juniores, Abdel Kader dedicou-se ao estudo da Filosofia. Camus teria sido o grande guarda-redes do Racing nas suas vitórias no Campeonato Argelino da década de 1930, não fosse a doença tê-lo afastado da prática desportiva. Abdel Kader, depois do desgosto de lhe ver roubada a possibilidade de ser futebolista, viu também Camus roubar-lhe o protagonismo no campo da filosofia. Certos homens nascem para viver na sombra. Foi o que sempre pensou Abdel dos sonhos de grandeza que o seu pai lhe tinha reservado. 

domingo, 5 de setembro de 2010

Noruega - Portugal: a primeira vez

Estádio Ulleval em Oslo
Em Junho de 1967, Portugal era uma das mais importantes selecções do mundo, dado o pódio conquistado no Mundial do ano anterior. No grupo de qualificação para o Europeu de 68, a equipa portuguesa disputaria o primeiro jogo oficial contra a Noruega. Mais precisamente, no dia 8 desse mês.
No onze titular, Eusébio liderava o conjunto, apoiado em experientes jogadores como José Augusto, Jaime Graça, Hilário e Morais, mas também em estreantes como Estêvão Mansidão, do Braga. Perante 31000 pessoas, Eusébio não deixou os seus créditos em mãos alheias, marcando o primeiro golo aos 15 minutos e o segundo aos 61, depois da Noruega ter conseguido o empate. A equipa norueguesa era um dos parentes pobres do futebol europeu, mas foi a única equipa que Portugal conseguiu vencer por duas vezes nessa fase de qualificação, acabando sem qualquer outra vitória nos confrontos contra Bulgária e Suécia.
Na próxima terça-feira, Noruega e Portugal voltam a entrar no Estádio Ulleval, em Oslo, para disputar a qualificação para o Euro 2012. O futebol norueguês evoluiu muito durante a década de 90, mas o que iremos assistir é um confronto de duas equipas à procura de uma nova identidade: a Noruega saudosa dos sucessos da década passada, Portugal em luta contra o síndrome da orfandade.

sábado, 4 de setembro de 2010

Futebol nos Estados Unidos


Beau Dure é um jornalista desportivo, do USAToday,  que acompanha a Major League Soccer desde 1999. Long-range goals: the success of Major League Soccer é o seu primeiro livro, sendo também o primeiro livro sobre a liga americana de futebol.
Um dos preconceitos ainda presentes na cabeça de grande parte dos seguidores deste desporto é o previsível insucesso do mesmo em terras do Tio Sam. No entanto, sendo a selecção americana uma presença habitual em Mundiais desde 1990, com uma liga profissional que completa, este ano, catorze épocas, talvez seja melhor repensar a frase.
No livro de Beau Dure acompanhamos toda a história da MLS, começando com o acordo estabelecido entre a Federação dos Estados Unidos e a FIFA, no sentido de ser criado um campeonato profissional de futebol, assegurando assim a organização do Mundial de 94. O caminho desta liga não foi fácil. As dificuldades encontradas para atrair investidores, as guerras com outros campeonatos organizados no território, os problemas com as situações contratuais dos jogadores e as formas encontradas para conciliar os diferentes públicos do soccer são analisados a fundo neste livro. Para além disso, contamos com bons relatos do que se passou em todas as épocas da liga, para além dos resultados dos play-offs.
Beau Dure também entrevistou vários dos administradores da liga ao longo dos anos, bem como jogadores que ficaram no imaginário dos amantes do futebol, como Alexi Lalas. As palavras dos diferentes intervenientes ajudam o livro a tornar-se um objecto de interesse para quem procura as histórias associadas ao fenómeno futebol.
Long-range goals, não sendo um livro memorável, é um excelente contributo para quem tem curiosidade sobre o que se passa no futebol do lado de lá do Atlântico Norte. Também nos ajuda a compreender uma visão do desporto que é, em vários pontos, muito afastada da visão europeia. No fundo, ambos os lados terão algo a aprender com o outro. Se a boa saúde financeira da liga encontrar meios de se manter (dado como garantido o crescimento das plataformas de criação de novos jogadores em todo o território), o futuro da MLS tratará mais da forma da sua evolução do que das dúvidas acerca da sua subsistência.

(este livro na Amazon)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Portugal - Chipre: a primeira vez

Portugal em 1972
O primeiro encontro entre as selecções de Portugal e do Chipre realizou-se no dia 29 de Março de 1972. Com Portugal a viver sob uma ditadura que se ia desfazendo com o desgaste da Guerra Colonial, os cipriotas não viviam melhor sorte, já que tendo conseguido a independência em 1960, o seu território era disputado por Gregos e Turcos, num clima de confronto e tensão que atingiria o seu ponto alto em 1974 com a divisão da ilha em duas repúblicas.
Em 1972, a selecção portuguesa vivia entre gerações. No primeiro jogo de José Augusto no comando técnico, dois outros Magriços evoluíam ainda no onze inicial (Jaime Graça e Eusébio), partilhando o terreno de jogo com Humberto Coelho, Nené e Jordão, símbolos da equipa das quinas durante a década de setenta. O futebol cipriota era um dos parentes pobres das competições europeias, não se estranhando, assim, a confortável vitória por 4-0. O jogo contou para a fase de apuramento para o Mundial de 74, sendo que ambas as equipas acabariam por ficar de fora, o Chipre em último lugar do grupo, Portugal ultrapassado pela Bulgária.
Depois desse encontro, Portugal e Chipre voltaram a encontrar-se por mais sete vezes, sempre com resultados favoráveis para os Lusitanos. Mesmo que, no início do séc. XXI, os cipriotas apareçam como uma potência emergente na Europa (com equipas a disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões e da Liga Europa), o seu futebol combativo não deverá chegar para importunar uma equipa portuguesa que joga em casa. Veremos, mais logo, como rolará a bola.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A montanha pariu um rato

Para os adeptos dos principais clubes portugueses, a noite de 31 de Agosto para 1 de Setembro, foi uma pequena desilusão. Depois de dois meses a ouvir falar de potenciais reforços, estes acabaram por não chegar.
No caso do FC Porto, a novela Kléber acabou sem resolução (o jogador está a treinar no At. Mineiro e inscrito  pelo Marítimo), sendo que as notícias que davam conta de um potencial reforço para a linha atacante do clube ficou sem efeito. Para além de Falcao e Walter, os portistas vão ter que contar com possíveis adaptações dos seus extremos, sobretudo Hulk e Ukra, no caso de impedimento dos ponta-de-lança.
No SL Benfica, o reforço do meio-campo acabou também por não chegar, depois de inúmeros médios brasileiros (ao que se diz, descobertos por Jesus nas noites que passa a ver o Brasileirão) terem ficado sem bilhete para a Luz. Perante os jogadores contratados, fica a dúvida se a equipa foi reforçada no sentido de suprir as lacunas deixadas pelas saídas de Ramires e Di María ou se, pelo contrário, terá sido reforçada com o intuito de alargar as possibilidades tácticas do plantel. Jorge Jesus terá agora que trabalhar com o que tem (e não é pouco, Ruben Amorim, Carlos Martins, Sálvio, Gaitán... que luxo!).
O Sporting e, sobretudo, Paulo Sérgio, volta a ficar com o título de piada do último dia de reforços. Quando todos os esforços foram envidados para complementar uma linha atacante que era frágil, e mais frágil terá ficado com o empréstimo de Sinama-Pongolle, tendo mesmo o treinador reivindicado a contratação de um "pinheiro", anuncia-se a chegada de Tales, um médio brasileiro com 1m68 de altura(!!!). O ridículo da situação é acentuado com o facto do Sporting ter emprestado três jogadores com as características pretendidas por Paulo Sérgio: Owusu (1m83, no Cercle Bruges), Purovic (1m93, no Belenenses) e Baldé (1m93, no Santa Clara). Por muito discutível que seja a valia destes três jogadores, qualquer poderia reclamar um lugar num ataque leonino que se apresentará assim para a disputa de Liga, Liga Europa, Taça da Liga e primeiras eliminatórias da Taça de Portugal apenas com quatro avançados no plantel.
Em resumo, a montanha pariu um rato. E se o discurso oficial se tem ocupado a culpar a crise por estas lacunas nas principais equipas portuguesas, talvez a razão esteja num mau planeamento dos gastos. Os resultados são, como sempre, a única coisa que poderá salvar (mas também condenar) os responsáveis por estas opções.

Nota: Já depois da escrita deste texto o Sporting anunciou a contratação de Hildebrand, o que não vem mudar, em nada, as conclusões apresentadas. Apesar de ser um dos pedidos do treinador, guarda-redes era uma posição que o Sporting tinha coberta.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O pirata de Paris

(fonte da foto)
Laurent Fignon faz parte das minhas primeiras memórias do Tour de France. Se a memória não me atraiçoa, acompanhava as etapas na televisão, no Verão de 1989, talvez em directo, talvez em resumos alargados. Para além disso, A Bola e o Record contavam, ao pormenor, a disputa entre o francês com ar de pirata e um americano com ar de certinho (Greg Lemond).
Laurent Fignon já ganhara o Tour por duas vezes, em 82 e 83. Eram, assim, naturais, as esperanças dos franceses, numa época em que franceses a lutar pela vitória nesta competição eram ainda habituais. Fignon acabou por ficar para a história como o penúltimo francês a vencê-la (depois dele, só Hinault), tal como foi o penúltimo francês a conseguir um segundo lugar (imitado por Virenque, alguns anos depois).
O ciclismo internacional começou, para mim, ligado a Fignon. Por isso senti algum orgulho quando, em 92, já perto do final da carreira, o vi ainda vencer uma etapa do Tour, com a camisola da Gatorade. Ontem fui surpreendido pela notícia da sua morte. Aos 50 anos, Laurent Fignon não resistiu a mais uma etapa, sucumbindo ao avanço do cancro. Não mais voltaremos a ver o pirata loiro nas estradas, a não ser que procuremos bem no fundo do nosso baú de memórias, a não ser insistindo um pouco em rever as imagens que ficaram desses momentos históricos. Seguramente que, por aí, Fignon continuará a vencer etapas até à eternidade.