sábado, 9 de outubro de 2010

Temos selecção

Na noite chuvosa de ontem, ao fim de noventa minutos de jogo, Portugal percebeu que, afinal, há futuro para a selecção. Talvez alguns comentadores tenham ainda a nostalgia do discurso sobre tudo-menos-futebol-que-se-joga-dentro-das-quatro-linhas do Professor Queiroz, mas, na verdade, é dentro de campo que se demonstra o que pode ser feito pelo nosso futebol.
Paulo Bento chegou ao leme da selecção e a sua primeira opção foi colocar os jogadores nas posições onde podem render mais. Os resultados estiveram à vista de toda a gente. No fundo, não é preciso pensar muito para perceber que temos um guarda-redes de nível europeu em Eduardo, temos uma dupla de centrais de um dos melhores clubes do mundo, um lateral esquerdo que será um dos maiores do mundo logo que sair para jogar num campeonato competitivo e, pelo menos, duas sérias opções para jogar na lateral direita (João Pereira e Bosingwa). Para o meio-campo, temos um trio de trabalhadores-criadores de fazer inveja a muitas selecções. Meireles, Moutinho e Martins poderão não ser, individualmente, craques para a posteridade, mas têm todos uma dupla característica que é essencial no futebol moderno: qualidade técnica e capacidade de trabalho. Na frente de ataque, para além do melhor do mundo, temos um provável segundo melhor do mundo em Nani, e opções para ponta-de-lança como nunca tivemos antes, com a diversidade de poder escolher entre jogadores como Hugo Almeida (um pinheiro que corre), Postiga (na pressão e no jogo de equipa) ou ainda Liedson (se estiver em forma, é um oportunista de primeira). Para além do onze, temos ainda boas opções para o eixo da defesa e para o meio-campo.
Ou seja, andámos dois anos enganados a pensar que era o fim da selecção? Muito provavelmente, não. Neste momento temos conjunto suficiente para não depender de nenhuma estrela solitária (ao contrário do que pensa Queiroz) e a opção por Bento, um jogador e treinador de equipa, é a que faz mais sentido para conseguir retirar dos jogadores disponíveis o seu melhor.
No final do encontro de ontem, vários jogadores elogiaram os poucos dias com Bento, sempre com um sorriso nos lábios. Já não se via alguém sorrir com vontade na selecção há muito tempo.
Temos selecção.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A primeira vez de Paulo Bento

Em dia de estreia de Paulo Bento como Seleccionador Nacional, lembro a primeira vez que teve a honra de representar o nosso país. Paulo Bento não teve qualquer internacionalização enquanto jogador de formação, ele que representou o Ac. Alvalade, o Palmense e o Futebol Benfica. Já como sénior, passou pelo Estrela da Amadora mas só chegado a Guimarães, para representar o Vitória, teve oportunidade de ser chamado a representar a nossa selecção e logo com a camisola dos AA.
No dia 15 de Janeiro de 1992, Paulo Bento foi um dos jogadores portugueses que entrou no Municipal de Torres Novas para defrontar a Espanha. Lembro-me de ver esse jogo na televisão e de, passados alguns anos, ter estado no Estádio onde uma placa no túnel de acesso ao relvado relembra um dos momentos altos desse lugar. Na equipa portuguesa jogavam, na altura, Paulo Futre, Oceano, João Pinto (o do FCP), Cadete, acompanhados por algumas das jovens estrelas que despontavam no nosso futebol, Figo, Peixe, João V. Pinto, Fernando Couto, Vítor Baía, tendo como líder da equipa técnica o famoso Professor Carlos Queiroz.
Sem nunca ter partilhado a glória da geração de ouro, Paulo Bento acompanhou o percurso da maior parte dos jogadores dessa selecção, estando presente no Europeu de 2000 e no Mundial de 2002, onde disputou o último jogo com a camisola da Selecção.
Ao todo foram 35 partidas, para um jogador que passou a maior parte da sua carreira fora do estrelato, tendo passado pelo Benfica nas épocas negras de Artur Jorge e companhia, e feito várias épocas em Oviedo, quando o campeonato espanhol não tinha o glamour que detém hoje.
Mais logo, Paulo Bentro entrará no Estádio do Dragão como líder de uma equipa de quem se esperam milagres. Que, desta vez, os deuses estejam com ele, e que todas as estrelas brilhem no esperado sucesso da equipa de todos nós.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

"Todos conhecemos a história do filho pródigo" - Entrevista a Joe Gabriele (Cleveland Cavaliers)

Na semana em que começaram os jogos de preparação para a nova época, apresento a primeira entrevista acerca da NBA no  blogue Sociedade Anónima Desportiva. Tendo em conta a novela Lebron James, que tomou toda a atenção dos seguidores da Liga neste Verão, decidi falar com Joe Gabriele, jornalista dos Cleveland Cavaliers, para nos dar uma ideia das sensações que vão reinando na cidade que King James deixou para trás.

Como é ser-se escritor oficial de um clube? Sentes-te mais perto dos adeptos ou dos jogadores? E que tipo de pressões te são impostas?
Eu adoro o meu trabalho como “beat writer” dos Cavaliers. Eu nasci em Cleveland, sou adepto da equipa desde que nasci, então sinto-me como se tivesse sido feito para ter este emprego. Suponho que estou certo ao dizer que me sinto a meio caminho entre os adeptos e os jogadores. Sempre tive óptima relação com os jogadores, há oito anos que faço este trabalho e passaram por Cleveland alguns excelentes rapazes. E, por muito cansado que eu venha a ficar, vou ser sempre um adepto dos Cavaliers.
A organização nunca me pressionou para dar uma imagem positiva ou negativa de qualquer acontecimento. Quando o jogo é feio, eu escrevo que é feio. Tenho sorte em ter recebido sempre total liberdade para fazer o que quiser com o material que tenho.

O tema desta pré-temporada é o caso Lebron. Como é que a equipa vai reagir a este burburinho quando a época começar?
Julgo que quando a bola for lançada para o primeiro jogo de preparação dos Cavs, ninguém se vai lembrar de Lebron até que os Miami venham jogar a Cleveland, a 2 de Dezembro. O Byron Scott, o nosso novo treinador, não vai permitir que ninguém fique a olhar para o passado. O objectivo é ganhar jogos e, como disse recentemente o Mo Williams, ninguém vai sentir pena da nossa equipa.

Para ti, quem será o principal jogador dos Cavs, esta época?
Tenho esperanças de que o Mo Williams consiga assumir a liderança, apoiado no veterano Antawn Jamison. Mas eu estou à espera que o Anderson Varejão (que é o mais antigo Cavalier no actual plantel) demonstre ser o melhor jogador da equipa. Ele passou por tudo, em sete épocas com a equipa, e tem condições para mostrar aos mais jovens o que é preciso fazer para vencer jogos. O seu coração, combatividade e inteligência de jogo são contagiosos.

Achas mesmo que os Cavaliers serão capazes de atingir os Play-off? E, caso não consigam, o Presidente da equipa, Dan Gilbert, está preparado para enfrentar tamanha contrariedade?
Tenho a certeza que vamos lutar por um lugar nos Play-off. Os rapazes estão habituados a vencer e, mesmo tendo perdido um duplo MVP da Liga, mantém todo o talento necessário para ganhar. Para ser sincero, Dan Gilbert não está preparado para uma contrariedade destas, nem permitirá que tal aconteça. Se os Cavs não atingirem essa fase da competição, ele saberá como fazer para devolver a equipa a essa glória.

Vamos imaginar a época de 2020… Achas possível voltarmos a ver Lebron James com a camisola dos Cavaliers?
Pessoalmente, sim. Dez anos são muito tempo e quem pode imaginar tudo o que vai acontecer entre o agora e esse momento. Todos nós conhecemos a história bíblica do filho pródigo, não é?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"É difícil distinguir entre a crença e o desejo" - Entrevista a Miguel Pedro Guimarães

Aproveitando a viagem a Braga, entrevistamos Miguel Pedro Guimarães, Presidente da Assembleia Geral do Sporting Clube de Braga. Miguel Pedro é também conhecido por ser um dos membros das bandas Mão Morta e Governo, para além de ser um ferrenho adepto do clube bracarense.

És sócio do SC Braga há mais de 30 anos. Este é, sem dúvidas, o melhor dos tempos para a equipa bracarense?
Que eu me recorde, sim. No entanto, existiram momentos marcantes, como a primeira subida à 1ª Divisão ou a conquista da Taça de Portugal, que foram tempos memoráveis, segundo reza a história.
 
Deste grupo de jogadores, qual (ou quais) ficarão na história e na memória dos adeptos?
Isso só a história o dirá. É um lote de bons jogadores, dedicados e, neste momento, não seria justo distinguir algum....

Na época passada, o título esteve bem perto. Acreditas que é possível atingi-lo este ano?
Acreditar, claro que sim...Só que é difícil distinguir entre a crença e o desejo. O que existe é um forte desejo que tal aconteça e, para isso, é preciso acreditar .

Qual é o segredo do sucesso do SC Braga?
Todos os envolvidos neste projecto…Mas tenho a certeza que o papel da administração, neste últimos anos, tem sido preponderante. São eles os que vão ao leme deste barco e, se chegarem a bom porto, muito a eles se deverá, claro.

Por outro lado, o crescimento do Braga no panorama nacional tem sido acompanhado por uma incapacidade de trazer os novos valores do clube para a equipa principal. Onde estão os Barrosos, os Quims e os Eduardos deste Braga?
O Eduardo está no Génova, o que é bom sinal. Mas essa questão põe-se em todos os clubes que tenham melhor orçamento: o Falcão e o Hulk, o Cardozo e o Saviola, são da formação dos respectivos clubes? 

Em Braga, uma terra onde há imensos benfiquistas, os bons resultados calam uma contestação da ligação entre o presidente A. Salvador e o FC Porto. É uma barreira ao crescimento do clube, o facto de em Portugal os três grandes contaminarem o ambiente futebolístico?
É, pelo menos, um fenómeno muito português e demonstra, apenas, que, de forma generalizada, o povo é meio parolo. É por isso também que a maior parte dos estádios está "às moscas".

Qual é a sensação de se jogar em casa no estádio mais bonito do país?
Sabe bem, claro... Mas melhor é, ainda, ter os adeptos mais fantásticos do país.

Como costumam ser as assembleias gerais do Braga? Corre tudo com tranquilidade ou é algo de semelhante à adrenalina de um concerto de rock?
Tudo tem corrido sempre muito bem, com discussões construtivas e saudáveis.

Por fim, se dependesse de ti, qual destas estrelas contratarias para jogar no Braga: valter hugo mãe ou Adolfo Luxúria Canibal?
Nenhum...nem sabem jogar....são péssimos jogadores...mas excelentes letristas e escritores.

The Braga Experience


A Liga dos Campeões chegou à cidade de Braga e a cidade tenta corresponder a tão ilustre visita. Na tarde de 28 de Setembro, o centro da capital minhota estava cheio de gente e a conversa não podia ser outra, senão o jogo que se iria disputar daí a umas horas. Decidi fazer o caminho entre o centro e o estádio a pé, para conhecer o trajecto e saborear um pouco dessa aventura que é reconhecer como se constroem cidades nos dias de hoje. A caminhada levou-me até à freguesia de Dume onde, por detrás de um aglomerado de árvores, se começou a desenhar o fantástico Estádio Municipal de Braga.


A realidade é mesmo essa, Braga tem o mais belo estádio construído em Portugal. Enquanto os primeiros adeptos iam entrando, as barracas de bifanas concentravam a azáfama de gente que se preparava para o grande jogo. Já dentro do estádio, tomado pelo efeito da dupla bancada com pedreira ao fundo, deu para perceber como se pode transformar uma coisa banal como um lugar para disputar competições desportivas num recinto que é um ex-libris da cidade. Para além da fantástica obra de arquitectura, o estádio funciona também como um enorme miradouro para a freguesia de Dume, dona de características típicas da região do Minho.

A ansiedade tomava toda a gente que esperava nas bancadas o apito inicial do árbitro. A acústica do estádio funciona às mil maravilhas, sendo que tudo estava preparado para o espectáculo. O pior foi o facto do recital ter sido dado pela equipa do Shaktar. Com uma frente de ataque onde sobressaíam três craques brasileiros (Douglas, Luiz Adriano e Wiliam), a equipa baseava o seu jogo na solidez do seu meio-campo e na expectativa. Jogando com os nervos bracarenses, os ucranianos iam trocando a bola e esperando que os caminhos para a baliza se abrissem. Do lado do Braga, toda a táctica de Domingos se concentrava na expectativa de encontrar Salino em todos os lados do campo. O médio brasileiro apoiava a atacar e a defender, escondendo as fragilidades de Matheus na disputa entre os centrais adversários e compensando a lentidão dos médios Vandinho e Luís Aguiar.

A estatística explica uma grande parte do problema do Sporting de Braga nesta 2ª jornada da Liga dos Campeões.  Com dez remates à baliza, alguns deles sem qualquer adversário na frente, o Braga não conseguiu marcar golo algum. Do lado ucraniano, bastaram quatro remates para marcar três golos. O Braga teve azar, mas o Shaktar foi claramente mais forte, saindo do encontro como justíssimo vencedor e grande candidato a seguir em frente na Liga. Quanto ao Braga, como diziam os seus adeptos à saída do Estádio, tem agora a obrigação de vencer o Partizan de Belgrado nas próximas jornadas, de forma a garantir, primeiro, a qualificação para a Liga Europa e tentar, nas últimas jornadas, limpar a sua imagem e disputar o segundo lugar.

Uma cidade não recebe um jogo de futebol apenas no seu Estádio. Pensar isso seria esquecer a essência do espectáculo que rodeia este desporto. E a verdade é que quem não esteve no Café Botafogo,  na Praça Conde de Agrolongo, bem no centro de Braga. Ali, meia dúzia de adeptos bracarenses discutiam as opções do treinador, as simpatias do Presidente, o património do clube e a vida afecto-clubística de cada um deles. Um evento dentro do próprio evento. O empregado do café desculpava-se a cada minuto pelo tom de voz elevado que aquele grupo de habituais utilizada para falar da bola. Mal sabia ele que, assim, garantia um lugar na posteridade, ficando escrito que, em Braga, o futebol discute-se até de madrugada…

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Algarvios em campo

Foto Mário Rolla/ Jornal do Algarve
Iniciou-se este fim-de-semana o Campeonato Distrital de Futebol do Algarve, 1ª Divisão, uma competição disputada por vários históricos do sul do país. Cerca de metade das equipas participantes jogaram, no passado, nos Nacionais, e terão como objectivo um desejado regresso a esse nível. No entanto, durante esta época, encherão os relvados algarvios de grandes rivalidades, cultivadas ao longo dos anos.

Na primeira jornada, o duelo de gigantes disputou-se no Municipal da Quarteira, com o Quarteirense a receber e a vencer, por 2-0, o Imortal de Albufeira. No plantel da equipa da casa ainda joga Idalécio, um dos ícones do futebol algarvio, gigante defesa que brilhou com a camisola do Sp. Braga e Rio Ave, entre outras. Do lado da equipa de Albufeira, a figura é o avançado Pintassilgo, que andou na 1ª Divisão com a camisola do Farense e deixou registo em vários clubes algarvios ao longo da sua carreira.

Outro dos históricos deste campeonato é o Lusitano de Vila Real de Santo António. No primeiro jogo, não poderia ter feito melhor, já que marcou cinco golos sem resposta ao Odeáxere. No plantel do Lusitano mantém-se Marco Nuno, agora com 36 anos, outro dos jogadores que viveu momentos altos com a camisola do Farense.

Quem também não deixou os seus créditos em mãos alheias foi o Silves Futebol Clube, ao visitar Almancil deixando também cinco golos no cartão de visita. Na equipa branca e negra jogam dois Moutinhos, Nélson e David, nenhum deles capaz de atingir o nível do seu familiar João, que brilha agora com a camisola do FC Porto. Nesta divisão será ainda bom prestar atenção às carreiras de Campinense e Castromarinense, duas equipas que conseguem, habitualmente, andar nos primeiros lugares do campeonato.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Física entra a vencer no Nacional de Hóquei em Patins

No primeiro jogo a contar para o Nacional de Hóquei em Patins, a equipa da Física de Torres confirmou a excelente campanha da época passada. Recebendo no seu pavilhão o histórico Óquei de Barcelos, os torreenses mostraram-se sempre superiores e souberam controlar a vantagem adquirida na primeira parte da partida.

A Física entrou a dominar e marcou primeiro num excelente remate de Carlos Godinho. Os homens de Barcelos não encontravam forma de contrariar a troca de bola e a pressão dos homens da casa, sendo que também demonstraram grandes dificuldades para entender as novas regras, o que originou uma série de faltas, numa das quais a Física conseguiu aumentar o marcador, em recarga de Alan Fernandes, depois de falhar a concretização de uma grande penalidade. A Física carregava e, com dois cartões azuis a serem mostrados a Nuno Almeida e ao banco, o Barcelos terminou a primeira parte em défice, perdendo já por uma diferença de três golos.

O intervalo fez bem à equipa do Óquei, que entrou mais concentrada e diminui a desvantagem. No entanto, a Física reagiu bem, mesmo com Fortunato e Alan no banco, e aumentou para 5-1. Com a vitória na mão, a equipa da casa relaxou e permitiu ao Barcelos a reacção, que marcou dois golos consecutivos. No entanto, as faltas na área barcelense continuavam e a Física conseguiu dilatar a vantagem, assegurando a vitória ainda com mais de dez minutos para serem disputados.

Os minutos finais foram de claro domínio da equipa da Física, que nunca deixou de  tentar aumentar a vantagem, conseguindo-o por mais duas vezes. A equipa de Barcelos reconheceu o ascendente do adversário, não deixando de lutar para perder por uma diferença mínima. Quem se deslocou ao Pavilhão José Maria Antunes pôde assistir a uma excelente partida de Hóquei em Patins, com duas equipas experientes que lutarão por um lugar na primeira metade da tabela classificativa. Na próxima semana, a Física viajará até Oliveira de Azeméis, com o desejo que continuar a mostrar porque é que é uma das representantes nacionais nas competições europeias desta modalidade.

A invisibilidade


Michael Keshi era um rapaz como milhares de outros rapazes nascidos na cidade de Akure, no Sudoeste da Nigéria. A ocupação, praticamente nenhuma. Os estudos não se prolongam por aí além, em toda a Nigéria, e se há coisa rara de encontrar por ali são empregos. Assim, desde muito cedo Michael andava pelas ruas, fazendo biscates, inventado formas de passar o tempo, de encontrar algo para levar para casa que pudesse ajudar à refeição diária da família. Pouco mais. Era um rapaz normal.
Todos os rapazes normais de Akure queriam ser jogadores de futebol. E Michael, claro, não era excepção. Começara a jogar pelas ruas até ser convidado para jogar no Sunshine Stars, um dos clubes da cidade. Michael não tinha uma posição definida, corria pelo campo e aparecia, quase sempre, nos espaços  vazios, tanto para cortar os lances adversários como para finalizar os lances da sua equipa. O seu treinador dizia que ele era um jogador invisível e com a evolução da sua carreira, Michael Keshi foi fazendo por merecer tal epíteto.
Dividia a sua vida entre as ruas e os campos de futebol. Ser jogador do Sunshine Stars, mesmo como sénior, não lhe valia de muito em termos monetários, mas Michael tinha esperança e entregava-se aos treinos e aos jogos com grande fervor. O problema era, mesmo, essa sua característica diferenciadora, a invisibilidade. Quanto mais tempo passava em campo, menos visível era a sua acção. No entanto, e apesar disso, Michael era também cada vez mais imprescindível na sua equipa, porque só com ele em campo a equipa conseguia ganhar jogos.
Michael Keshi brilhou durante quatro épocas com a camisola dos Sunshine Stars, na primeira divisão nigeriana, acabando por ser contratado para jogar na Europa. Pouca gente tinha dado por ele, mas o mito à volta da sua qualidade era superior ao que se podia ver em campo. E já se sabe, para olheiros e agentes, conta o mito. Assim Keshi assinou por uma equipa belga que também vestia camisola amarela, o KV Oostende. Esta sua nova equipa, apesar de centenária, passou grande parte dos últimos anos na segunda divisão e foi aí que Keshi começou a fazer história na Bélgica.
Durante o primeiro mês de treinos, passou muito despercebido a colegas e treinadores. Diziam que talvez fosse o facto de não falar a mesma língua dos companheiros, a adaptação a um novo país. Apareceu algumas vezes nas reservas até conquistar lugar na equipa principal. E assim se passou em Oostende o mesmo que se passava no Sunshine Stars. Com Michael Keshi em campo, a equipa ganhava jogos e começava até a sentir-se capaz de lutar pela subida à divisão principal. Mesmo que nenhum adepto sequer o reconhecesse na rua. Mesmo que nenhum jornalista o destacasse nos resumos semanais dos jogos.
Foi o próprio seleccionador nigeriano quem se deslocou até ao Albertparkstadion para observar esse jogador de que tanto se falava. E foi com o caderno de notas vazio,  que o chamou-o para o compromisso seguinte da selecção,  Keshi foi pré-convocado para a Taça das Nações Africanas de 1996. O problema é que tanta invisibilidade não era já fruto do acaso, mas uma particularidade que Michael Keshi carregava como uma ameaça.
Apesar de ter ficado para a história que a Nigéria desistiu de participar nessa competição por razões políticas, a verdade é que muitos dos que conheciam Michael Keshi preferiram acreditar que a invisibilidade de Keshi não sobreviveria à transmissão televisiva dos jogos. E por isso, não houve Nigéria, nem Keshi, esse ano, na África do Sul. Tanto esse novo boato se foi espalhando pelos campos do futebol, que Keshi deixou o KV Oostende e voltou à Nigéria, não ao seu clube, mas às ruas de Akure, onde dizem que ainda anda, de um lado para o outro, à procura de um rumo. Dizem, sim, apenas. Porque não há quem o tenha visto. 

domingo, 3 de outubro de 2010

Como se inventa um dérbi

Sexta-feira à noite no Pavilhão do Externato de Penafirme, cerca de cinquenta pessoas juntam-se para assistir ao confronto entre as duas equipas do concelho de Torres Vedras que disputam a 1ª Divisão Distrital de Lisboa em Futsal, o ADCR Santa Cruz e o Atlético Barroense. A equipa de Santa Cruz disputa os seus encontros nesta localidade a cerca de 2 km da sua sede, devido à inexistência de pavilhão na localidade. Quanto à equipa do Barro faz-se acompanhar de vários adeptos, acreditando numa possível promoção à divisão maior do futsal distrital.

Denotam-se acentuadas diferenças entre os dois clubes. Do lado do Santa Cruz, a aposta centra-se numa mistura entre atletas da casa, já com vários anos de experiência nestas divisões, e atletas de fora, sendo de destacar a dupla brasileira Beto e Marcos, para além de vários atletas contratados no início desta época. Quanto ao Atlético Barroense, a aposta de há alguns anos atrás foi na formação, não sendo de espantar que, apesar de ter uma média de idades muito mais baixa, os seus atletas apresentem uma maturidade competitiva e uma eficácia que lhe valeram o triunfo neste dérbi torreense.

A equipa do Barro foi quase sempre superior aos homens da casa. Espalhando melhor as suas peças pelo terreno de jogo, apostou quase sempre no erro do adversário, pressionando-o a campo inteiro. Tendo chegado a estar a vencer por 3-1, os homens de verde e branco acabaram por ser surpreendidos pela entrada em campo dos quase gémeos Beto e Marcos, dois atletas que revolucionam a atitude da equipa de amarelo, com uma capacidade de pressão e de execução bastante superior aos seus colegas de equipa. Ao intervalo, o resultado era um empate a três, fiel ao equilíbrio que os santacruzenses souberam impor na fase final da primeira parte.
No segundo tempo, o Santa Cruz entrou melhor, devendo a Carlitos e ao guarda-redes Gonçalo, para além dos jogadores já referidos, a capacidade de se bater de igual para igual com o Barroense. No entanto, o Barroense soube aproveitar melhor as oportunidades de que beneficiou, chegando à vantagem a meio do segundo tempo. A partir daí, veio ao de cima a superior capacidade da equipa do Barro, que encontrou na sua experiência uma forma de enervar os homens de Santa Cruz, sendo através de faltas e entradas mais duras ou de paragens de jogo para pedir a limpeza do terreno de jogo.

O Barroense acabou por ser um vencedor justo, chegando a marcar mais dois golos para terminar o encontro com um resultado de 3-6. O Santa Cruz mostrou evolução em relação aos jogos da época passada, mas precisará de mais maturidade competitiva para se manter na disputa por uma boa classificação. Nota ainda para o ambiente vivido no Pavilhão de Penafirme. A grande vantagem das competições distritais é a paixão e as “bocas” que acompanham os eventos dentro de campo. Mais uma vez, foi possível ver um árbitro a manter diálogo com a assistência, algo que não deixa de ser sempre uma surpresa e, seguramente, não se pode experimentar a casa. 

sábado, 2 de outubro de 2010

Há festa no ringue

Foto de Pedro Alves (mundook)
Inicia-se hoje o Campeonato Nacional da 1ª Divisão de Hóquei em Patins, competição em que, mais uma vez, todos estarão a jogar contra o FC Porto. A equipa azul e branca soma nove títulos consecutivos e entra na nova época como principal candidato a mais um título. Na linha da frente para quebrar a hegemonia portista estará o SL Benfica, que este ano se reforçou com o objectivo de lutar pela vitória até à última jornada.

Na equipa do FC Porto praticamente não houve alterações, registando-se apenas a saída de Jorge Silva, tendo sido compensada pela entrada de Gonçalo Suissas, ex-Juventude de Viana. O SL Benfica reforçou-se em Itália, fazendo vir de Bassano o argentino Abalos e o brasileiro Cacau, para além de ter pescado em Viana do Castelo o internacional português Luís Viana. Em ambas as equipas podemos encontrar internacionais portugueses (para além da dupla de espanhóis e do argentino do Porto), estando o campeonato condenado a ser disputado pelos dois grandes do Hóquei em Patins português.

No entanto, num ano em que a 1ª Divisão foi alargada para dezasseis equipas, poderemos encontrar muitos mais motivos de interesse. Desde logo, três equipas estão na linha da frente para dificultar a vida aos grandes. O Candelária, que se reforçou  com João Miguel (ex- Porto Santo), Montivero (ex- Viareggio, Ita) e Jorge Silva (ex- FC Porto), participará na Liga Europeia e mantém a ilusão de levar o primeiro título nacional para as Ilhas dos Açores. Por outro lado, Oliveirense, que mantém a aposta na experiência, e Juventude de Viana, que passou por um rejuvenescimento do seu plantel, darão grande competitividade à primeira metade da tabela.

Os restantes candidatos a um lugar na Taça Cers são o Óquei de Barcelos (com a contratação de Paulo Matos e de Nuno Almeida, jogadores de larga experiência no campeonato), Porto Santo (que depois de um ano negro volta a apostar forte nas contratações, onde se destacam vários jovens como Luís Querido, Márcio Fonseca e Daniel Coelho), Gulpilhares, Física e Ac. Espinho (que mantiveram, quase sem alterações os seus plantéis da época passada). Neste grupo, a Física de Torres foi quem conseguiu o objectivo na época passada, sendo que poderá provar, pela primeira vez, na presente época, o sabor das competições europeias.

Num campeonato onde descerão quatro equipas, seis delas disputarão os dois lugares que darão direito à continuidade na divisão maior do Hóquei em Patins português. Entre elas, a equipa do HC Braga é a que detém maior experiência. No seu plantel encontramos nomes como Guilherme Silva, Rodrigo Sousa, Tiago Barbosa e Pedro Alves, que disputarão, em Novembro, a pré-eliminatória da Taça Cers. Outra das equipas que deverá evitar a relegação é o Valongo, principalmente por ser uma equipa dificílima de bater no seu pavilhão. Cambra, Sporting de Tomar, Dramático de Cascais e Limianos darão tudo por tudo para escapar ao destino provável de uma descida de divisão. A equipa de Cambra é quem apresenta mais experiência no seu plantel, mas o equilíbrio do meio da tabela, neste campeonato, faz-nos prever grandes dificuldades ao cinco liderado por Ricardo Geitoeira.

A bola começa a rolar às cinco da tarde de hoje. Na primeira semana de Junho de 2011, saberemos se as nossas previsões se cumprem ou não. Até lá, temos divertimento dentro do ringue.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A selecção de Paulo Bento

Paulo Bento anunciou hoje a sua primeira convocatória enquanto seleccionador nacional. E, o melhor que se pode dizer desta convocatória, é que não houve surpresas. Com as lesões de Bosingwa e Quaresma, acrescidas dos diversos abandonos, os vinte e três chamados por Bento são mais do que naturais para quem tem acompanhado o futebol português.
Na baliza, a continuidade de Eduardo é mais do que óbvia, ainda quê Rui Patrício venha a fazer uma série de excelentes exibições, o que pressionará o agora genovês. Beto é uma terceira opção com qualidade, apesar da pouca rodagem.
Na defesa, a minha aposta será num quarteto formado por João Pereira, Ricardo Carvalho, Pepe e Fábio Coentrão. Apesar de ter aceite a possibilidade de Pepe jogar a médio, é mais do que previsível que se beneficie do facto de termos os nossos melhores centrais a jogar juntos no mesmo clube. Coentrão, que é hoje em dia um muito melhor lateral do que extremo, continuará por certo na esquerda e João Pereira deixa a quilómetros a possibilidade de Sílvio lhe fazer frente. Bruno Alves e Rolando completam as opções, para o que der e vier.
No meio-campo, aproxima-se a possibilidade de ver Moutinho, Meireles e Martins (ou Veloso, que também poderá dar uma perninha na lateral esquerda) ocuparem os lugares de titulares. Paulo Machado (que na origem era um volante, mas no Toulouse joga muitas vezes quase como um falso extremo) e Tiago completam as opções na linha média.
Já quanto ao ataque, aceitam-se sugestões. O normal será pensar num trio composto por Cristiano Ronaldo, Nani e Hugo Almeida. No entanto, Paulo Bento poderá apostar em Liedson, que ele conhece como ninguém, ou até surpreender com o inspirado Postiga, que em 4x3x3 poderá ser uma melhor opção para criar movimentações com os dois extremos. Danny será sempre um excelente suplente e Hugo Almeida continuará a ser um excelente ponta-de-lança que, simplesmente, tem dificuldades de se integrar no estilo de jogo português - que gosta muito de "pinheiros" mas depois não tem um estilo de jogo que os saiba utilizar. Ainda assim, antes tê-lo connosco que no nosso adversário.
Venha o dia 8 de Outubro.