quinta-feira, 21 de julho de 2011

As luvas de Mcghee


Franck Mcghee tinha tão interiorizado em si o facto de ser guarda-redes que usava sempre luvas. Os seus colegas achavam curioso que aquela torre australiana tivesse hábitos tão estranhos. Mas ele era o melhor guarda-redes da história do Mohun Bagan AC, a equipa de futebol de Calcutá, também conhecida como os “Marinheiros”. E era isso que lhe perdoava todas as excentricidades. Franck “The Glove” Mcghee defendia como ninguém a baliza do clube que, entre os finais dos anos setenta e o início dos oitenta, dominou o futebol da região de Calcutá e de toda a Índia.
O caminho que este australiano fez até chegar a ser guarda-redes na Índia não é feito de evidências. Franck era descendente de irlandeses, todos eles ligados ao comércio marítimo na cidade de Perth, na costa oeste da Austrália. Dizia-se, em meados do século XX, que em cada esquina do porto de Perth havia um Mcghee. Isso fazia com que o  sentido de pertença ao lugar fosse algo que estava marcado, como ferro em brasa, em cada criança que nascia no clã. O problema de Franck era o facto de, no seu caso, a sua pertença ao clã ser, no mínimo, desconfortável. Fruto de uma relação ocasional entre um Mcghee e uma jovem que trabalhava num dos pub’s do porto, a sua marca provocava-lhe mais comichão do que orgulho.
Talvez fosse por isso que, desde muito novo, Franck sonhou fugir daquela cidade. Como é costume dizer-se, de Perth não se pode fugir por terra, dado o facto da cidade estar próxima do imenso deserto australiano. Daí, a Franck restava apenas a opção marítima. Devia ter treze ou catorze anos quando se apresentou a um capitão de embarcação inglês e se tornou marinheiro. Bem, talvez não marinheiro, mas um moço que ia no barco para fazer todo o tipo de serviços que aparecessem. E Franck, que mesmo jovem era já enorme, com perto de dois metros, não se negava a nenhuma tarefa. Foi assim ganhando o apreço dos ingleses e escoceses que, com ele, partilhavam a vida, sendo também com eles que começou a jogar esse desporto tão estranho à maioria dos australianos. O futebol.
A embarcação passava mais de metade do ano pelo Índico, a transportar bens, sendo que no fim desse período regressava a Inglaterra, onde passava o mês de Dezembro. Para Franck Mcghee tanto lhe fazia se o levavam para trás ou para a frente, coisa que ele não queria era regressar à Austrália. Foi assim conhecendo mundo, ora passando esse mês de férias em Inglaterra, com algum dos seus colegas, ora ficando pela Madeira, Cabo Verde, Angola, África do Sul, gozando de umas férias mais veraneantes do que aquelas que estavam reservados aos restantes, entre familiares e Natal. Por todos os lugares onde passava, Franck, fosse ou não com os seus colegas, não perdia a oportunidade de se exercitar na defesa de redes de balizas de futebol. O seu tamanho convidava-o sempre para essa posição, e a verdade é que, com a bola nos pés, o nosso homem não teria lugar em equipa alguma.
Era duro o trabalho no barco e habituais os acidentes. Para Franck, chegou o dia trágico em que perdeu três dedos da mão direita, presos a uma das cordas que manejava para prender uma série de volumes que se soltavam no meio das ondas do Índico. A maior tragédia prendia-se com o facto de, estando em mar alto, não haver maneira de preservar os dedos, tendo que esperar três dias até aportar em Calcutá para poder tratar e manter o resto da mão em bom estado. Franck sabia que aí acabava a sua carreira de marinheiro – de alguma forma, um tarefeiro sem dedos é algo de pouco préstimo para a tripulação de um barco – o que ele ainda não sabia era que começava aí a possibilidade de ser um futebolista.
Ficou em Calcutá quando o barco partiu, de novo, em direcção a oeste, esperando melhor oportunidade para continuar a sobreviver. E ao fim de poucos dias foi surpreendido por Badru Pal, um dos jogadores do Mohun Bagan, que se lembrava de o ver jogar em vários jogos no porto de Calcutá. Havendo falta de guarda-redes no clube, nem ocorreu a Franck tirar a luva que lhe escondia a falta de dedos, aparecendo ao primeiro treino, defendendo como era seu costume, todas as bolas que almejavam as redes da sua equipa. Foi contratado para a equipa que disputaria, nesse ano de 78, a Taça da Federação. E o sucesso foi tão grande que por lá continuou a dar alegrias aos Indianos.
À taça de 78, juntou as taças de 80, 81 e 82. Também venceu a Liga de Calcutá em 78, 79, 83 e 84. E ainda a IFA Shield, em 78, 79, 81 e 82. Ao todo foram sete anos a defender a baliza do Mohun Bagan AC, anos em que não lhe fizeram falta os dedos para ser considerado o grande guarda-redes da história do clube. Franck “The Glove” Mcghee tornou-se uma lenda em terras indianas. E quando, no fim da sua carreira de futebolista, voltou a Perth, a sua cidade não era mais o reduto dos irlandeses, mas um local cheio de gente de todo o mundo, o lugar onde Franck se sentia bem, por conjugar a terra que era sua, com a variedade de olhares, cheiros e línguas a que se habituara nas viagens pelos mares do mundo.
Nunca, na Índia, único lugar onde foi um futebolista federado, chegaram a saber da falta de dedos na sua mão direita. Franck Mcghee tinha tão interiorizado em si o facto de ser guarda-redes que, por isso, pensavam os seus colegas, usava sempre luvas. Todos  achavam curioso que aquela torre australiana tivesse hábitos tão estranhos. Todos o admiravam pelos seus feitos. Franck Mcghee foi, de facto, um guarda-redes feliz. 

domingo, 10 de julho de 2011

Portuguesas na Eurocup

Conhecidos os adversários das duas equipas portuguesas presentes na Eurocup 2011-12, falamos com os treinadores para saber quais as suas perspectivas para a nova época, no que toca à participação na competição europeia.

Para o actual campeão nacional, José Leite, a principal novidade para a equipa da Quinta dos Lombos, que faz a sua estreia a nível europeu, serão as viagens.  “Temos que apreender rapidamente as particularidades existentes (jogar após longas viagens, jogar contra equipas de perfis físicos diferentes daqueles que estamos habituados) para conseguirmos pôr toda a nossa competitividade em campo.”

Assumindo a participação europeia como uma elevação do basquetebol nacional, o treinador faz a seguinte análise dos adversários:

Dínamo de Moscovo (Rússia) : “uma das equipas mais fortes da europa, tendo ganho esta prova em 2007 e com participações regulares na Euroliga. É um adversário de peso,uma grande motivação para a nossa equipa.”

Botas Spor (Turquia) : “um dos clubes mais consistentes da Turquia, também com um longo historial de participações europeias, conta com imenso apoio do seu público nos jogos em casa.”

Horizon Minsk (Bielorússia) : “tem menos historial europeu que os outros dois adversários, mas é o actual campeão nacional. O ano passado ganhou sete jogos e perdeu apenas um na Eurocup”.


Maior competência

Para Nuno Ferreira, treinador do AD Vagos, a quarta participação consecutiva em competições europeias permite que a equipa se sinta cada vez mais competente nos encontros frente a adversários que impõe dificuldades às quais a equipa não está habituada nas competições nacionais.

Com um conjunto de adversários considerados “difíceis”, a equipa de Vagos terá pela frente equipas de França e Bélgica, só tendo que fazer uma maior deslocação para enfrentar o Optimum Ankara, da Turquia.

Eis a análise feita por Nuno Ferreira:

Nantes (França) : “Será um reencontro, é um adversário muito complicado, como são, tradicionalmente, as equipas francesas”.

Dexia Nemur (Bélgica) : “uma equipa muito experiente, participa nas competições europeias há muitas épocas e costuma reunir um conjunto de jogadoras muito competente”.

Optimum (Turquia) : “é ainda um desconhecido para mim, mas o basquetebol turco é muito forte e esta equipa terá, certamente, recursos  para apresentar um plantel muito forte”.

A Eurocup Feminina começará a disputar-se no início do mês de Novembro. 

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uns minutos na vida



Erik Badu cresceu, na cidade ganesa de Kumasi, com um sonho: ser jogador de futebol. No entanto, os deuses que distribuem os dotes futebolísticos não lhe deram suficiente atenção. Erik, magro e franzino, era sempre o último a ser escolhido para os jogos entre os rapazes do seu bairro, era sempre o gozado por falhar inacreditáveis golos junto a uma das pedras que faziam de baliza na extremidade do descampado onde todos se encontravam,  era dos que tinham que jogar descalços por, na sua família, não haver dinheiro suficiente sequer para uns sapatos novos.  Erik tinha um sonho e uma longa estrada para percorrer até o concretizar.
Cedo a escola foi abandonada pelos biscates num dos armazéns de exportação de flores da cidade. Erik Badu ocupava os seus dias no sensível trabalho de transportar flores e plantas de diversas espécies, sempre na esperança de chegar perto da estação de caminhos-de-ferro de Kumasi, onde ouvia deliciado os relatos de jogos de futebol no estrangeiro, contados por velhos europeus que dominavam, ainda, as rotas daquele comércio no Gana. Foi assim que Erik aprendeu a sonhar com o Leeds United, o Chelsea, o Liverpool e o Manchester United, e foi também assim que Erik acabou por encontrar uma oportunidade para mudar de vida.
Tinha Erik completado dezoito anos e podia dizer-se um especialista em vários tipos de flores e plantas africanas. Foi essa uma das razões pelas quais um holandês de visita a Kumasi o convidou para trabalhar com ele na Europa. E assim se mudou Erik Badu para Roterdão, com papéis legalizados (um luxo), emprego assegurado e uma maior proximidade do seu sonho. O problema é que, sem qualquer passado como jogador de futebol, a não ser alguns treinos no clube Asante Kotoko FC, ficaria difícil encontrar quem o aceitasse até para treinar. Mas acabou por encontrar lugar no VOC Rotterdam, uma equipa amadora, onde durante três épocas disputou uma média de trinta minutos por ano, sendo, em troca, responsável pelo tratamento dos relvados do clube.
Apesar de parecer coisa pouca, entrar em campo com uma camisola de uma equipa de futebol encheu Erik de brios. Começou então a desenhar-se na sua cabeça um plano para subir na vida de futebolista. Para isso precisava de ajuda, e acabou por encontrá-la num agente de futebolistas inglês que, ouvindo as palavras Gana e Holanda, logo se pôs a imaginar as várias possibilidades de lhe encontrar colocação numa equipa britânica. Assim viajou Erik Badu para Inglaterra: como jogador de futebol.  Os seus primeiros meses em Inglaterra seriam difíceis para qualquer um, mas não o foram para ele. Passou-os em consecutivas experiências em clubes como o Port Vale, o Gillingham ou o Bournemouth, acabando sempre por não assinar contrato com nenhum deles. A sua salvação acabou por ser encontrada no Blyth Spartans, uma equipa dos campeonatos regionais, onde pôde finalmente mostrar os seus dotes em jogos oficiais.
Erik Badu tratava muito bem a relva e muito mal a bola. Mas isso não o impedia de ser um dos mais dedicados nos treinos e nos jogos em que lhe era dada a oportunidade de jogar. Na equipa do Blyth chegou até a marcar um golo num dos nove jogos em que participou. Quando chegou o final da época, acabou dispensado. Mas isso não o fez desistir. Convenceu o seu empresário a telefonar a todos os treinadores da primeira liga inglesa, com o intuito de conseguir mais um período de experiência, agora que se sentia em melhor forma, dado os treinos constantes. Perante várias recusas, e durante um telefonema para o treinador do Southampton, já a época começara há algum tempo, o seu agente lembrou-se de dizer que Erik Badu jogara nos escalões de formação da selecção ganesa e era amigo de George Weah, a esse tempo, um dos melhores jogadores do mundo.
Está para explicar como é que o treinador do Southampton caiu na história inventada pelo agente. A verdade é que caiu tão bem que, mais que um período de experiência, ofereceu a Erik Badu um contrato de dois meses, tentando evitar que ele acabasse noutra equipa até ao final da época de transferências. Quando Erik chegou ao clube, o seu rosto era só felicidade. Novembro é um mês de chuva intensa nas ilhas britânicas e a sua estreia pela equipa de reservas acabou por ser adiada, devido ao mau estado do relvado. Nos treinos, Erik surpreendia os seus colegas pelo seu pouco ortodoxo estilo de correr, não tendo sido sem espanto que o viram na lista de convocados para o jogo do seguinte fim-de-semana. A verdade é que, devido a lesões e a uma expulsão no jogo anterior, não sobravam avançados disponíveis no plantel. Erik tinha então a sua oportunidade de ouro de aparecer num jogo da Primeira Liga.
Os deuses que sempre o abandonaram até este dia, quiseram premiar-lhe a perseverança. Por volta da meia-hora de jogo, o avançado do Southampton, Matthew Le Tissier, lesionou-se e Erik Badu foi chamado para o substituir. O público ovacionou aquela contratação misteriosa, tão querida do treinador. A verdade é que o que se seguiu foi uma das páginas mais risíveis da história do futebol inglês. Erik Badu correu como um inocente pelas mais estranhas linhas do campo, não conseguiu controlar uma bola, em suma, denunciou, em poucos minutos, toda a sua falta de jeito para praticar futebol. Na bancada, o público dividia-se entre os risos e os apupos ao treinador, o qual assistia a tudo aterrado e envergonhado.
Foram estes os minutos mais felizes da vida de Erik Badu. Jogou vinte e nove minutos na Liga Inglesa. No dia seguinte, apresentou-se no estádio para ser assistido pelo médico, como se fosse devido a lesão que tudo lhe correra mal no dia do jogo. O seu contrato foi rescindido e nunca mais se viu Erik em Southampton. Na verdade, nessa mesma semana, regressara a Roterdão, retomando a sua posição na empresa do florista holandês. Acabou também por reconquistar o seu lugar como tratador de relva e como ocasional jogador do VOC Rotterdam. A única diferença é que agora, já não era o desconhecido rapaz que pouco jogava. Era o mundialmente famoso Erik Badu, o homem que contra tudo e contra todos, foi profissional em Inglaterra, mesmo que por poucos minutos.

(Com uma especial dedicatória a Graeme Souness e Ali Dia, dois homens que tornaram esta história possível antes mesmo dela ter sido inventada)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Eurobasket – And in the end, Russia won


For those who watched the games, this women's Eurobasket was a real promotion to the women’s game.
During 15 days, we had great games, full of excellent players and unpredictable results. We saw favorites going down to their knees and we learned to respect new powerhouses in the European Basketball.   It was a really exciting competition.
And in the end, Russia won.
Star-divide
Write down this name. Elena Danilochkina. She’s 25 and spent her last two seasons in Vologda-Chevakata, in the Russian League. In the European Competitions, she disputed Eurocup. During the 2010 World Cup, she was Becky Hammon’s substitute, and she was ready to continue like that, if Epiphanny Prince had come to play in Poland. But she didn’t. We heard that Russia would feel their lack of quality in the point guard position.
And then Danilochkina stepped in.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Eurobasket: New Seattle Storm Signing Ewelina Kobryn & The Americans in the Competition


It’s all happening in Poland, as Eurobasket is played.
The competition has started off with surprises, with all the teams giving their best to reach the London 2012 Olympics. One team that won’t be there is the big favorite, Spain. After losing to Croatia in the last game of the second phase, the Spanish side (where Sancho Lyttle has left a lot to be desired…) is living one of the worst basketball moments of  these last years.  But we’ll analyze that in another article.
For now, all the American attention has turned to Ewelina Kobryn, after the Seattle Storm signed her to help out after  the loss of center Lauren Jackson, reportedly out 12 weeks due to injury. Seattle had already shown interest in Kobryn during the preseason, but, as she told to the Polish website pracuj.pl, "they wouldn’t let me play Eurobasket and I couldn’t accept that".
As things turned out, Kobryn was able to play Eurobasket in her own country and will have now a place on the roster of the defending WNBA champions.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Bartleby de Sarriá


Enrique Vicenç viveu sempre no bairro de Sarriá, à sombra do estádio do Real Español, seu clube de razão e coração, como ele gostava de dizer. O Real Español é a maior equipa de Barcelona, se exceptuarmos uma outra, da qual Enrique nem se atrevia a dizer o nome. Desde bem pequeno, era vê-lo a correr para as bancadas do Sarriá (que também era o nome do estádio), a vibrar pela equipa das camisolas azuis e brancas, a gozar as vitórias e a chorar as derrotas do seu clube. Não espanta por isso que, mal teve idade para tal, Enrique Vicenç se tenha tornado jogador do Real Español.
Enrique foi sempre o jogador mais destacado das escolas do Real Español. Para além da enorme classe que transportava para dentro de campo, sentia também a camisola do clube como nenhum outro. Diz-se que cedo deixou a escola para que pudesse passar mais tempo junto do Sarriá. E então, bem novo, acumulou com a carreira de jogador uma série de pequenas tarefas na estrutura do clube, desde engraxador de botas, até varredor de bancadas, apanha-bolas ou mesmo técnico de equipamentos. Para Enrique, tudo se fazia, desde que fosse no Real Español.
Na memória de todos os aficionados do Real Español ficaram gloriosos encontros de juniores contra o FC Barcelona (ou, os outros, como dizia Enrique), quando Vicenç pegava na bola e se encantava a fintar todos aqueles que lhe apareciam pela frente, até voltando atrás para fintar pela segunda vez alguns deles, antes de finalizar em golo as brilhantes jogadas. Enrique Vicenç era um fabuloso jogador, um apaixonado pelo seu clube, um odioso adversário dos seus rivais, e tudo isso fez com que crescesse à sua volta uma lenda, um mito apenas semelhante aos dos mais antigos, de que seria ele o líder do primeiro Real Español campeão de Espanha. Era nisso que todos acreditavam.
A ambição de Enrique, por seu lado, não era menor. É claro, ele sonhava com o dia em que pudesse festejar o campeonato no seu Sarriá, rodeado de todas as honrarias guardadas para os heróis dos grandes títulos. Mas também se imaginava a capitanear a equipa do Real Español vencendo uma Taça do Rei, que lhe fugia desde 1940, ou então conquistando uma taça europeia, a Uefa, a das Taças, a dos Campeões até, fazendo o nome do seu clube brilhar entre os melhores do mundo. Era com isso que Enrique sonhava, ele que era o melhor jogador de sempre formado no Real Español.
Quando no início dos anos oitenta se tornou profissional, Enrique Vicenç estava mais perto do que nunca de cumprir o seu sonho. Tudo se confirmava, agora, daquilo que se esperava deste jovem jogador. Os brilhantes jogos no campeonato, as incríveis lutas nos jogos da Taça do Rei, as chamadas à selecção. Enrique era o pólo da atenção de todos aqueles que viam os jogos do Real Español . Depois de anos de lutas infrutíferas, em 1988 chegou a grande oportunidade de Vicenç.  Depois de eliminar AC Milan, Inter de Milão, Viktovice e Club Bruges, o Real Español chegou à final da Taça Uefa para enfrentar o Bayer Leverkusen.
No dia 4 de Maio de 1988, 42000 pessoas enchiam o Estádio Sarriá. Enrique Vicenç saiu em ombros, depois de marcar dois golos na vitória de 3-0 da sua equipa. Os de Barcelona sorriam com a possibilidade tão próxima de conquistar um troféu europeu. Muitos deles foram até Leverkusen para o jogo da segunda mão. A realidade nunca foi tão dolorosa para os adeptos do Real Español. Com uma primeira parte a cumprir as expectativas, os espanhóis acabaram por sofrer três golos na segunda parte, perdendo no desempate das grandes penalidades. Pior que tudo, foi Enrique Vicenç que falhou a última penalidade.
Ele tinha 26 anos e abandonou o futebol. Quando no final do Verão de 88 a equipa do Real Español voltou aos treinos, Enrique Vicenç não apareceu. Os adeptos, apesar da desilusão de Leverkunsen, acreditavam ainda que seria Enrique o líder das conquistas do seu clube e esperavam que ele não os decepcionasse na próxima oportunidade em que chegassem a uma final. Viam-no passar na rua, sempre um pouco cabisbaixo, e muitos acreditam que ele passeava em volta do Sarriá em dias de jogo, como se tentasse ganhar coragem para voltar a entrar no estádio que tinha papel principal em todos os seus sonhos.
Os adeptos sofriam com esta opção de Enrique. E embora isso não os tenha consolado, um texto de Pere Gimferrer na revista Destino orientou-os. Comentando que a carreira de Vicenç estava encerrada para sempre, dizia Gimferrer: “Mas nos olhos (de Vicenç), mais serena, pulsa a mesma chispa: um fulgor visionário, agora secreto na sua lava oculta […]. Para lá do imediato, pressente-se um surdo rumor de oceanos e abismos: Vicenç continua pelas noites sonhando jogadas e golos, embora já não os marque.”
Futebol não jogado, mas vivido pela mente: um final belíssimo para alguém que deixa de jogar.

(Nota: os dois últimos parágrafos são uma transcrição, modificada, de outros dois parágrafos do livro Bartleby & Companhia, de Enrique Villa-Matas.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Antes inventado


Descendente de uma família das Antilhas, Thierry Henry nasceu nos arredores de Paris, tendo sido aí que despontou para o futebol.  Desde cedo que o seu estilo felino de pegar na bola e avançar pelo terreno de jogo prometia um grande jogador. Talvez tenha sido por isso que, durante a sua formação, foi evoluindo de clube em clube, recebendo sempre promessas de mais apoio e mais qualidade na preparação das suas características. Les Ulis, Palaiseau e Viry-Châtillon foram os pequenos clubes onde Henry foi acompanhado de seu pai, que era quem o obrigava a apresentar-se nos treinos, coisa que, para o jovem Thierry, não fazia parte das prioridades.
Aos dezassete anos, após ter sido várias vezes observado, Henry assinou pelo AS Mónaco. Aí completou a sua formação e estreou-se como jogador da equipa principal. Começava então a fulgurante carreira do jovem no campeonato francês, com direito a chamadas à selecção de sub-20 e, pouco depois, também à selecção principal. Henry era um avançado que jogava descaído na esquerda, utilizando a velocidade e a finta como suas principais armas. Com apenas vinte e um anos, Thierry Henry já fazia parte da selecção francesa que foi campeã mundial, o que o fez passar a ser conhecido internacionalmente.
Bastaram apenas mais quatro meses para que Henry fosse negociado para um dos maiores campeonatos do mundo, o italiano. No entanto, as suas características exigiam espaço de execução  e isso era algo que os adversários pouco lhe permitiram nessa época. Assim, acabou por deixar a Juventus e assinar pelo Arsenal de Londres, onde foi reencontrar o treinador Arséne Wenger. Acabou por ser em Inglaterra que Henry cumpriu tudo aquilo que havia prometido. Centenas de jogos e golos obtidos com a camisola vermelha e branca do clube londrino, dois campeonatos, três taças, mais um título europeu de selecções. Henry tornou-se, de facto, num herói.
Curioso, no entanto, é o facto de no futebol os heróis terem tanta atracção pelo abismo. Fosse porque se cansara da vida em Londres, do estilo pouco atraente que o Arsenal colocava agora no seu jogo, constantemente ultrapassado pelos adversários na classificação, fosse, ainda, por se sentir atraído pelas sereias de Barcelona, Thierry Henry acabou por assinar pela grande equipa da Catalunha. Aí continuou a sua senda de títulos, mas o brilho já não era o mesmo. Ganhando taças em Espanha e na Europa, Thierry Henry era apenas uma peça da engrenagem blaugrana, sem a admiração que lhe era votada nos tempos do Arsenal.
Será que os heróis do futebol são personagens passageiras? Será que não há nada que possam fazer para se manter, sempre, nos corações daqueles que enchem estádios para os ver? Será que era nisso que Thierry Henry pensava quando, a 18 de Novembro de 2009, já em período de prolongamento do play-off de apuramento Mundial contra a Irlanda, decidiu meter a mão à bola, originando assim o golo que apurou a França? A verdade é que, na senda do apagamento da sua importância no clube onde jogava, este episódio causou uma onda de indignação à volta do seu nome. O até ali menino-quase-perfeito, aparecia agora como vilão do anti-fairplay, o que era um enorme dano à sua imagem.
Para piorar as coisas, só mesmo a carreira da França no Mundial de 2010, com Henry a assistir a todos os jogos sentado no banco, só entrando quando já nada parecia adiantar a um conjunto que tentava sobreviver a lutas internas de protagonismo e poder. Henry perdera o seu estatuto de capitão de equipa, a sua importância e influência junto dos seus jovens colegas de equipa, até o treinador perdera confiança nas suas qualidades para ajudar a selecção. A única pessoa que pareceu dar-lhe ainda algum valor foi o Presidente da Republica, que o recebeu mal a equipa foi eliminada, numa reunião que mais pareceu uma ida do aluno queixinhas à sala do director da escola.
É estranho como um herói se desgasta. Como uma figura que todos respeitam, em poucos meses, se vê envolvida em situações que a tornam dispensável, vergonhosa, infame. Estranho também como, a certas personagens, preferíamos inventá-las. Poder pensar que, ao acabar um texto, essa personagem ficaria quieta e sossegada na página, incapaz de tomar mais alguma decisão que a faça perder, uma outra vez, aquele brilho que nos originou nos olhos quando a vimos correr na relva pela primeira vez.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Porto é campeão

Os Dragões venceram o Benfica na finalíssima da LPB, por 86-76, e festejaram assim o seu primeiro título desde 2004.

Numa final onde as equipas visitantes foram sempre muito afectadas pela ansiedade, o jogo 7 não foi excepção.  Mesmo sem  qualquer ponto de Ben Reed ou Greg Jenkins na primeira parte da partida, o Benfica ia conseguindo manter a proximidade no marcador, muito graças ao acerto de Marquin Chandler. Do outro lado, a equipa do Porto tinha momentos de muito acerto, que lhe fizeram ganhar dez pontos de avanço logo no primeiro quarto, conjugados com períodos de adormecimento, que permitiam a recuperação do Benfica.

No início da segunda parte, o Porto entrou decidido a fechar o jogo e, com um parcial de 9-0, praticamente colocou o Benfica fora da disputa. No entanto, Ben Reed tinha uma ideia diferente.  Pegando no jogo dos encarnados, Reed manteve o Benfica vivo até aos minutos finais, onde a diferença de dez pontos era já inultrapassável.  Sean Ogirri (25 pontos) foi o melhor marcador da partida, onde Greg Stempin (20 pontos, 10 ressaltos) teve também um papel preponderante. Do lado das águias, Ben Reed (14 pontos, 7 ressaltos) e Marquin Chandler (16 pontos, 5 ressaltos) foram os melhores jogadores.

O Porto Ferpinta atingiu o título, primeira conquista do treinador Moncho López. Os jogadores utilizados pelo técnico espanhol foram os seguintes: Greg Stempin, Julian Terrell, Sean Ogirri, Carlos Andrade, Nuno Marçal, Miguel Miranda, José Costa, João Santos, João Soares, Diogo Correia, David Gomes, Pedro Catarino, André Pereira, Miguel Maria Cardoso. 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Terceira Basket campeão

A equipa açoriana venceu em Barcelos (61-68) e festejou o título de campeão da Proliga, cumprindo a proeza de entrar nos playoff em sexto lugar e terminar como vencedor.

O último jogo começou com ascendente da equipa da casa, mas a resposta do Terceira Basket no segundo período, onde conseguiu um parcial de 23-8, impôs uma distância difícil de recuperar. No regresso dos balneários, a equipa minhota conseguiu voltar a colocar pressão sobre a equipa da Terceira, mas o jogo mais ofensivo da equipa açoriana permitiu-lhes ir assegurando os pontos necessários para a vitória.

Durrell Nevels (14 pontos, 19 ressaltos) e Nate Bowie (20 pontos, 8 ressaltos, 8 assistências) foram as principais figuras da equipa terceirense, enquanto João Moreira (17 pontos, 10 ressaltos)esteve em destaque na equipa da casa.

A equipa do Planeta Basket que acompanhou a Proliga nesta temporada de 2010/11 dá os parabéns ao clube açoriano, à sua direcção e a todos os elementos que o representaram nesta temporada.

Jogadores: Nate Bowie, Durrell Nevels, Álvaro Pontes, Diogo Gonçalves, Frederico Tavares, João Ávila, Eugénio Silva, António Pimentel, Dédalo Enes, Pedro Matos, Andrew Morris, Fernando Ferreira e Alexandre Rocha. Treinador: Rui Fonseca (que substituiu Nuno Barroso após a sua saída para o Lusitânia. 

domingo, 29 de maio de 2011

Só se decide no fim

Com duas vitórias caseiras, o Terceira Basket leva a decisão da Proliga de volta a Barcelos, onde na próxima quarta-feira se jogará o jogo final.

A equipa minhota entrou nos dois jogos com vontade de decidir o título, mas a qualidade dos açorianos, conjugada com a vantagem de jogar no seu reduto, impediu que a competição ficasse decidida este fim-de-semana.

No jogo 3, as equipas fizeram uma primeira metade muito equilibrada, sendo que um terceiro período de ascendente da equipa de Barcelos teve como resposta dez minutos de espectáculo ofensivo dos açorianos, que acabaram por vencer por 89-70.

No jogo 4, a equipa minhota chegou ao intervalo com 12 pontos de vantagem e, mais uma vez, parecia perto de ter o título resolvido. No entanto, uma excelente resposta dos açorianos no reatamento da partida permitiu-lhes uma vitória por 86-77.

Durrell Nevels e Nate Bowie foram os homens em destaque no Terceira Basket, contando com boas exibições de Diogo Gonçalves (jogo 3) e Álvaro Pontes (jogo 4). Da parte do BC Barcelos, Pedro Silva teve duas grandes exibições, ainda assim insuficientes para evitar o regresso ao Minho onde, na próxima quarta-feira, as duas equipas jogarão a cartada final da Proliga 2010/11.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Porto manda no Dragão

Mais um grande jogo do Porto Ferpinta, que bateu o Benfica por 91-79. As águias apresentaram-se frágeis e nervosas demais para bater os dragões, que voltaram a fazer um jogo dominante em sua casa.

O Porto parecia estar melhor, mas no primeiro quarto, era o Benfica quem tentava fazer tudo o mais simples possível. Ambas as equipes foram surpreendidas pelos critérios dos árbitros, deixando que se jogasse duro. Mas com o tempo, Henrique Vieira e Moncho López tiveram que  fazer alterações, dadas as faltas acumuladas por alguns jogadores. Porto fechou o  período com seis pontos de vantagem, mas o Benfica estava em jogo.

Com Marquin Chandler e Ben Reed no seu melhor, o Benfica foi capaz de pegar no jogo e tomou a liderança da partida. O Porto sentia grandes diferenças, quando tinha José Costa ou Sean Ogirri na direcção do jogo. Costa é um verdadeiro base, e um jogador muito experiente, mas não tem ritmo para parar jogadores como Miguel Minhava. Ogirri é um forte defensor e um lançador bem mais eficaz, mas não tem qualidades de direcção, que o fez perder algumas posses de bola durante o jogo. Com tudo isso, o jogo chegou empatado ao intervalo.

Os Dragões mudaram de atitude no terceiro quarto, optando por ataques rápidos e uma selecção de lançamento bem melhor. O Benfica perdeu a cabeça, com Elvis Évora muito nervoso, chegando ao ponto de quase agredir um adversário, após um ressalto, numa jogada que não foi sancionada pela equipa de arbitragem. Os Dragões atingiram uma vantagem superior a dez ponto e as esperanças do Benfica neste jogo ficaram desfeitas.

Até o final do jogo, mesmo que o Benfica tenha tentado reagir, o Porto foi capaz de garantir a vantagem. Julian Terrell (24 pontos, 15 ressaltos) foi o MVP, com Carlos Andrade (16 pontos, 8 assistências) e Greg Stempin (27 pontos, 7 ressaltos)a apresentarem-se a muito bom nível. Quanto ao Benfica, Greg Jenkins (17 pontos, 6 ressaltos) foi o melhor jogador.

No próximo domingo, no Pavilhão da Luz, poderemos encontrar o novo campeão da LPB.